Em 2007, Hollywood apostou alto numa fantasia sombria chamada bússola de ouro — e perdeu. Em 2013, tentou replicar o frenesi de Crepúsculo com caçadores de sombras: cidade dos ossos — e perdeu de novo. Em 2014, escalou um elenco absurdamente estrelado para O último caçador — e ninguém se interessou. Os três filmes foram desenhados como porta de entrada para trilogias que nunca vieram.
A pergunta que não quer calar: por que tantos blockbusters de fantasia chegam ao cinema já com a continuação engatilhada e mofam na prateleira? A resposta é menos poética e mais corporativa — e os três casos abaixo mostram, em ordem, como a conta simplesmente não fechou.
O que aconteceu
Os três títulos nasceram do mesmo raciocínio de estúdio: existe um best-seller adorado, existe um elenco competitivo, existe um universo enorme a ser explorado. Bastava o primeiro filme funcionar para a máquina girar sozinha. O problema é que nenhum dos três conseguiu passar o próprio batente. Bússola de Ouro — adaptação do primeiro livro da trilogia His Dark Materials, de Philip Pullman — apostou todas as fichas no visual e afundou no roteiro. Cidade dos Ossos tentou surfar a onda Crepúsculo e envelheceu em tempo recorde. O Último Caçador tinha Jeff Bridges, Julianne Moore, Ben Barnes, Alicia Vikander e Kit Harington no mesmo cartaz — e ainda assim ninguém lembra que ele existiu.
O resultado? Três universos riquíssimos, três continuações engavetadas, e três trilhões de dólares em potencial de IP deixados na gaveta. O contraste com Senhor dos Anéis e Harry Potter — franquias que começaram com a mesma lógica e foram até o fim — é o que torna esses casos tão dolorosos de analisar.
Como chegamos aqui
A cronologia revela um padrão: quanto mais o estúdio tenta proteger o material de origem, mais o público rejeita.
Bússola de Ouro tentou esconder a religião — e perdeu a alma
O longa dirigido por Chris Weitz adaptou o primeiro volume de His Dark Materials (a saga literária de Philip Pullman que inclui A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar) e decidiu amansar o texto. Os elementos religiosos provocativos que dão personalidade à obra foram suavizados para ampliar o alcance comercial. A protagonista Lyra — vivida por Dakota Blue Richards — segue para o Norte depois que crianças começam a desaparecer, descobrindo uma conspiração que envolve daemons, o magisterium e a existência de outros mundos.
Visualmente, era um filme grandioso. Bilheteria global: cerca de US$ 370 milhões. Só que desse total, pouco mais de US$ 70 milhões vieram do mercado doméstico — número insuficiente para justificar adaptar A Faca Sutil e A Luneta Âmbar. Foi um dos exemplos mais cristalinos de Hollywood errar na primeira tentativa — e a ironia é que a história só ganhou a versão à altura do material anos depois, como série de TV pela HBO.
Cidade dos Ossos apostou em Crepúsculo sem ser Crepúsculo
Em 2013, Hollywood buscava desesperadamente o próximo fenômeno jovem-adulto e mirou na saga literária de Cassandra Clare. Cidade dos Ossos apresenta Clary Fray (Lily Collins) descobrindo que a mãe pertence aos Caçadores de Sombras — uma sociedade secreta de guerreiros que enfrentam demônios escondidos no mundo humano. O universo é absurdamente detalhado: regras próprias, dezenas de tipos de seres sobrenaturais, romances entrelaçados. Em formato de série, seria um tesouro. Em filme único, era overdose.
O longa teve desempenho fraco demais para manter a produção de pé — a sequência já estava em desenvolvimento pré-produção, mas foi congelada. O motivo provável foi a pressa em emplacar um novo franchise sem dar ao material o cuidado que ele exigia. Foi um bom começo, mas claramente insuficiente para o tamanho da mitologia.
O Último Caçador tinha elenco A+ e timing zero
Se você lembra de O Último Caçador, parabéns — você está em minoria. Baseado no primeiro livro das Crônicas de Wardstone, de Joseph Delaney, o filme acompanha Tom Ward (Ben Barnes), o sétimo filho de um sétimo filho, treinado pelo caçador de monstros John Gregory (Jeff Bridges) após a fuga da poderosa bruxa Mother Malkin (Julianne Moore). O elenco ainda trazia Alicia Vikander e Kit Harington — um time que, em qualquer outro ano, renderia no mínimo uma sequência.
O problema foi triplo: problemas de produção e distribuição fizeram o filme chegar completamente fora de timing. As críticas foram negativas, chamando-o de datado e desperdiçador de potencial. Havia investimento visível em efeitos e locações, mas a história — a parte essencial — foi empurrada para escanteio. Para uma franquia nascente, especialmente uma tão cara, não basta ter monstros, magia e um mundo enorme se nada disso empolga o espectador.
O que vem depois
Dos três, dois já ganharam vida nova em formato de série — His Dark Materials na HBO e Shadowhunters na freeform — provando que o material de origem nunca foi o problema. O roteiro de adaptação é que não soube traduzir a complexidade das páginas em duas horas de cinema. O caso de Cidade dos Ossos é especialmente curioso porque uma parcela de fãs ainda prefere o filme à série, mesmo esta sendo mais fiel.
O argumento mais forte, porém, é sobre O Último Caçador: é o único dos três que ainda não recebeu nova vida audiovisual e cujo reboot faria mais sentido agora. O motivo é simples — os livros de Delaney têm um lado mais sombrio e folclórico que o filme de 2014 jamais arranhou. Hoje, com a maturidade de streaming para sustentar o tom, e com o estrelato de Bridges, Moore e Vikander já consolidado de outro lado, uma nova tentativa poderia finalmente entregar o universo à altura.
O lado que ninguém está vendo
Há um padrão desconfortável aqui: os três filmes fracassaram por motivos distintos, mas o denominador comum foi a mesma arrogância de estúdio — acreditar que um best-seller + elenco forte + efeitos caros = franquia garantida. Quando Bússola de Ouro optou por diluir o tema central para ampliar público, ela mesma cavou a própria cova. Quando Cidade dos Ossos correu para capitalizar a onda Crepúsculo, ficou refém de uma fórmula já em declínio. Quando O Último Caçador tropeçou em timing e distribuição, perdeu a janela cultural.
A aposta da redação é clara: O Último Caçador é o reboot que mais precisa acontecer. Tem elenco compatível com o tom, material de origem com profundidade folclórica pouco explorada nas telas e — talvez o mais importante — nenhum remake ou adaptação concorrente disputando o mesmo espaço. Se um estúdio tiver coragem de devolver à franquia a escuridão que Joseph Delaney escreveu, este pode ser o sleeper dos próximos anos.
Enquanto isso, His Dark Materials e Shadowhunters seguem como prova viva de que, às vezes, o formato certo importa mais que o filme certo. A-ironia final: as franquias que nunca aconteceram no cinema vivem hoje nas telas de quem, em 2007, 2013 e 2014, jurou que não ia dar certo.


