Margot Robbie já era Margot Robbie antes de vestir o rosa de barbie ou a maquiagem borrada de Arlequina. Em 2013, a atriz australiana dividia tela com Domhnall Gleeson — anos antes dele virar o General Hux da nova trilogia Star Wars — e Rachel McAdams em About Time, comédia romântica britânica escrita e dirigida por Richard Curtis que usa viagem no tempo não para salvar o mundo, mas para entender o que torna um dia comum valioso.
O que é About Time e por que ele foge da fórmula tradicional
About Time apresenta Tim Lake (Gleeson), um jovem que descobre aos 21 anos que os homens de sua família herdaram a capacidade de voltar no tempo — mas apenas dentro de suas próprias vidas. Não há paradoxos temporais, saltos para o futuro ou missões para matar Hitler. O poder serve, no início, para Tim consertar gafes sociais e ensaiar o encontro perfeito com Mary (McAdams).
Richard Curtis, roteirista de Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill e Simplesmente Amor, constrói aqui seu trabalho mais maduro. A premissa fantástica existe para expor o ordinário: a graça está em ver Tim repetir uma conversa três vezes até acertar a piada, ou perceber que, mesmo com replays infinitos, não dá para evitar a dor de perder alguém querido.
Margot Robbie como Charlotte: o papel pequeno que antecipa a estrela
Robbie interpreta Charlotte, amiga de infância de Tim por quem ele nutre uma paixão platônica. A personagem aparece em poucos momentos, mas a atriz imprime a presença magnética que depois definiria Harley Quinn e Barbie. Em uma cena-chave, Tim usa a viagem no tempo para tentar transformar um encontro casual com Charlotte em romance — só para descobrir que a química real está em outro lugar.
Curiosamente, About Time estreou no Reino Unido em setembro de 2013. Meses depois, em dezembro, Robbie explodia mundialmente como Naomi Lapaglia em O Lobo de Wall Street, ao lado de Leonardo DiCaprio. O contraste entre a inglesa contida de Curtis e a americana explosiva de Scorsese mostra a amplitude que a atriz já carregava aos 23 anos.
Domhnall Gleeson: do fascista galáctico ao homem comum
Quem conhece Gleeson apenas como o General Hux — o oficial de fala histriônica e olhar gelado de O Despertar da Força (2015) e Os Últimos Jedi (2017) — leva um choque ao vê-lo aqui. Tim é desajeitado, vulnerável, de cabelos bagunçados e suéteres grandes. Não há vilania, apenas um rapaz tentando não estragar tudo.
A atuação exige um equilíbrio delicado: Tim manipula a realidade a seu favor, o que poderia torná-lo antipático. Gleeson evita isso com uma sinceridade desarmada. Quando o filme vira para a relação dele com o pai (Bill Nighy, em uma de suas performances mais ternas), o ator sustenta o peso emocional sem cair no melodrama.
Viagem no tempo como metáfora, não como enredo
A regra da família Lake — só voltar ao próprio passado — elimina as armadilhas narrativas de filmes como Efeito Borboleta ou De Volta para o Futuro. Não há linhas do tempo alternativas. O que há é um homem aprendendo que refazer o ontem não apaga a necessidade de viver o hoje.
Curtis usa o recurso para fazer perguntas práticas: Se você pudesse reviver um dia perfeito, faria isso quantas vezes? Guardaria o tempo extra para ler mais um capítulo para o filho ou para trabalhar? O filme responde sem sermão, deixando as cenas falarem.
O pai, o filho e o tempo que não volta
Bill Nighy vive James Lake, pai de Tim, que usa seu poder para coisas pequenas: ler mais um livro na biblioteca, tomar chá com a esposa, assistir à mesma peça de teatro pela enésima vez. A dinâmica entre os dois torna-se o coração do filme. Quando a doença chega, a viagem no tempo deixa de ser truque de roteiro e vira luto antecipado.
Essa virada — do romance para a paternidade, da comédia para o drama contido — é o que eleva About Time acima da média do gênero. Não é spoiler dizer que o filme faz você ligar para os pais depois dos créditos.
Rachel McAdams e a arte de ser a âncora realista
Mary (McAdams) não é o prêmio que Tim conquista; é a parceira que o obriga a crescer. A atriz, veterana de Diário de uma Paixão e Questão de Tempo (outro filme com viagem no tempo, mas de tom bem diferente), traz uma naturalidade que impede o personagem de virar fantasia masculina. Mary tem carreira, amigos, inseguranças e uma vida que existe fora do olhar de Tim.
Comparativo: About Time vs. outros filmes de viagem no tempo românticos
| Filme | Ano | Mecânica temporal | Foco principal | Tom |
|---|---|---|---|---|
| About Time | 2013 | Volta ao próprio passado (homens da família) | Família, escolhas diárias, luto | Doce, melancólico, realista |
| Questão de Tempo (The Time Traveler's Wife) | 2009 | Viagens involuntárias e aleatórias | Relacionamento sob condição impossível | Trágico, romântico, dramático |
| Efeito Borboleta | 2004 | Volta ao passado muda o presente drasticamente | Consequências caóticas de alterar eventos | Sombrio, thriller psicológico |
| Palm Springs | 2020 | Loop temporal compartilhado | Sentido da vida na repetição infinita | Cômico, existencial, leve |
Por que assistir mesmo se você não gosta de comédia romântica
- A viagem no tempo não é enfeite: estrutura o arco emocional do protagonista.
- O elenco secundário (Lydia Wilson como a irmã problemática, Tom Hollander como o dramaturgo fracassado) rende subtramas que poderiam sustentar filmes próprios.
- A trilha sonora, assinada por Nick Angel, mistura The Cure, Ben Folds e Ella Fitzgerald sem soar como playlist de algoritmo.
- O final não trai a lógica interna do filme — raro em produções com premissa fantástica.
Pra cada perfil, um vencedor
Quer ver Margot Robbie antes da fama global? About Time entrega uma atriz já segura, roubando cenas com poucos minutos de tela. Não é o filme dela, mas é um retrato fiel do talento que explodiria meses depois.
Curte Star Wars e quer ver o ator fora do uniforme? Domhnall Gleeson prova que Hux foi escolha de direção, não limitação de alcance. A transição de vilão de ficção científica para protagonista de comédia dramática britânica é um case de versatilidade.
Busca um filme que emocione sem manipular? Richard Curtis domina a arte de ganhar lágrimas com verdade. A relação pai-filho aqui é mais honesta que muito drama "sério" premiado em festivais.
Odeia paradoxos temporais mal explicados? As regras são simples, declaradas no primeiro ato e respeitadas até o fim. Não há deus ex machina no terceiro ato.
Disponível para aluguel ou compra nas principais plataformas digitais, About Time é daqueles filmes que melhoram na revisita — irônico para uma história sobre não poder refazer o passado.


