Anamanaguchi lançou Anyway em 2025 e quem esperava mais chiptune frenético vai levar um susto: o quarteto trocou os bleeps de game boy por guitarras sujas de indie rock, gravado na casa da banda American Football. A mudança não é sutil — é uma reinvenção deliberada que apaga a identidade que colocou a trilha de Scott Pilgrim vs. the World: The Game na cabeça de uma geração inteira.
O que era Anamanaguchi antes de Anyway
Peter Berkman, James DeVito, Luke Silas e Ary Warnaar construíram reputação fundindo chiptune — síntese sonora de consoles 8-bit — com energia de punk e pop eletrônico. A trilha de Scott Pilgrim vs. the World: The Game (2010) virou referência obrigatória: melodias grudentas, arpejos rápidos e aquela textura digital inconfundível. Depois veio a colaboração com hatsune miku, a idol virtual da Crypton Future Media, que rendeu apresentações ao vivo e até aparição no Fortnite Festival temporada 7. O som era maximalista, colorido e inegavelmente "de videogame".
O que Anyway propõe de diferente
Anyway joga tudo isso no lixo. Gravado presencialmente na casa do American Football — ícone do emo/math rock de Urbana, Illinois — o álbum aposta em guitarras fuzz, bateria orgânica e estruturas de canção convencionais. O chiptune vira textura de fundo, não protagonista. Faixas como "Anyway" e "Loud" soam mais próximas de Weezer fase Blue Album ou Joyce Manor do que de Endless Fantasy. A produção valoriza imperfeições: microfonia, takes crus, dinâmica de banda tocando junto no mesmo cômodo.
Chiptune vs. indie rock: comparativo direto
| Aspecto | Era Chiptune (até 2019) | Anyway (2025) |
|---|---|---|
| Instrumentação principal | lsdj, Nanoloop, chips NES/GB | Guitarras, baixo, bateria, synths analógicos |
| Estética sonora | Digital, quantizada, brilhante | Analógica, suja, dinâmica |
| Referências declaradas | Videogame music, J-pop, happy hardcore | Midwest emo, indie rock 90s, slacker rock |
| Processo de gravação | Programação em tracker, camadas infinitas | Banda ao vivo na sala, takes únicos |
| Público-alvo implícito | Gamers, fãs de anime, cultura otaku | Ouvintes de rock alternativo, fãs de American Football |
Por que a mudança faz sentido — e por que incomoda
Berkman já vinha flertando com rock de guitarra em projetos paralelos e entrevistas antigas citavam Built to Spill e Pavement como influências. O chiptune sempre foi veículo, não fim. Gravar na casa do American Football sela uma declaração de intenção: eles querem conversar com a linhagem do Midwest emo, não com a chiptune scene. O problema é que a base de fãs foi construída por causa do chiptune. Quem comprou ingresso pra ver "a banda do Scott Pilgrim" encontra um show de rock mediano sem o gancho que justificava o hype.
O que funciona em Anyway
- Arranjos vocais mais maduros — Berkman canta com menos artifício, mais presença
- Dinâmica de banda real: Silas na bateria traz peso que programação não replica
- Faixas como "Sunset" mostram que sabem escrever hooks sem depender de arpejo de pulso quadrado
- Produção de Anyway envelhece melhor que chiptune purista (que soa datado rápido)
O que falha
- Perda da identidade única: sem chiptune na frente, viram "mais uma banda de indie rock"
- Letras genéricas de término/ansiedade que o som 8-bit disfarçava com energia
- Fãs de Hatsune Miku e Fortnite não têm porta de entrada — o crossover morreu
- Gravação "crú" soa amadora em trechos, não intencionalmente lo-fi
Vereditos: o melhor pra cada perfil
Fã da trilha de Scott Pilgrim: pule. Anyway não entrega a dopamina de "Snowcones" ou "Threshold". Ouça Endless Fantasy de novo.
Ouvinte de American Football / Mineral / The Get Up Kids: vale a audição. A proximidade estética é real e há boas melodias escondidas sob o fuzz.
Curioso sobre evolução de artista: ouça uma vez. É estudo de caso raro: banda viral de nicho geek tentando virar "banda séria" de rock. O resultado é irregular, mas honesto.
Onde isso pode dar
Anamanaguchi está no limbo perigoso: grande demais pro underground chiptune, pequeno demais pro mainstream rock. Anyway pode ser o Kid A deles — rejeição inicial, reavaliação posterior — ou o Load do Metallica: momento em que a banda vira as costas pro que a tornou especial e nunca mais recupera a relevância. A aposta da redação: daqui a dois anos, Anyway será citado como "aquele álbum em que eles tentaram ser American Football" e a discografia real seguirá sendo a chiptune. O chiptune não envelheceu mal; eles é que envergonharam-se dele cedo demais.


