TL;DR: O thriller Animals, de Ben Affleck, reproduz a estrutura de High and Low, clássico de Akira Kurosawa, ao trocar o magnata japonês por um candidato a prefeito e manter o dilema do sequestro com resgate de alto risco.
Quais são as principais semelhanças entre "Animals" e "High and Low"?
Embora a Netflix não tenha anunciado oficialmente, a narrativa de Animals ecoa quase ponto a ponto o roteiro de High and Low, de 1963. A seguir, listamos cinco paralelos que revelam como o filme de Ben Affleck funciona como um remake não autorizado.
- O sequestro com resgate duplo – Em ambos os filmes, o protagonista recebe um telefonema na noite de Halloween informando o rapto de um garoto. O criminoso exige um resgate milionário, mas o alvo real do pagamento muda no meio da trama, criando um conflito moral que impulsiona a ação.
- Personagens de classe social oposta – Kurosawa coloca o empresário rico Kingo Gondo contra um ladrão pobre que vive nas sombras da mansão. Em Animals, Mark Kimball, advogado ambicioso e futuro prefeito, enfrenta o sequestrador cujo motivo está ligado ao seu trabalho como ambientalista, refletindo a tensão entre elite política e trabalhadores migrantes.
- Ambiente fechado como palco – A maior parte de High and Low ocorre dentro da residência de Gondo, transformada em um cenário quase teatral. Da mesma forma, Animals concentra grande parte da ação no escritório de campanha de Kimball, usando ângulos estáticos e closes que lembram a coreografia de Kurosawa.
- O “fixer” como figura de ponte – Enquanto o filme japonês não tem um intermediário formal, a versão americana introduz Dayle Burton (interpretada por Gillian Anderson), uma consultora de crises que resolve problemas por um preço alto, lembrando o papel de Winston Wolfe em Heat e reforçando a ideia de compromissos morais.
- Final sem confronto direto – Em High and Low, o confronto culmina em uma visita à prisão, onde o culpado e o inocente se encaram. Animals quebra essa expectativa ao omitir o encontro cara a cara, deixando o protagonista usar o sequestro como ferramenta política ao invés de buscar justiça pessoal.
Como o contexto político de "Animals" altera a mensagem original?
Ao transformar o protagonista em candidato a prefeito de Los Angeles, o roteiro introduz críticas ao sistema eleitoral americano. A decisão de Mark Kimball de usar o sequestro como trampolim para a campanha adiciona uma camada de manipulação midiática que não existia na obra de Kurosawa, onde o foco era estritamente econômico e moral.
- Campanha independente: Kimball se apresenta sem filiação partidária, reforçando a ideia de um outsider que precisa de um grande feito para se legitimar.
- Representação de imigrantes: O filho sequestrado pertence a Ramon, um imigrante mexicano sem documentos, trazendo à tona o debate sobre voto latino e exploração de vulnerabilidades.
- Motivação ambiental: O antagonista tem como razão a repressão de empresas poluentes, ampliando o conflito para questões contemporâneas de sustentabilidade.
O que dizem os críticos sobre a adaptação?
Vários críticos apontam que, embora Animals seja visualmente competente, ele peca ao não aprofundar o dilema de classe tão incisivamente quanto Kurosawa fez. A
“repetição de close‑ups de celulares”é citada como um sintoma da tentativa de modernizar a narrativa sem captar a linguagem cinematográfica do original.
Entretanto, alguns elogiam a inclusão de personagens como Dayle Burton, que trazem uma perspectiva de “custo da negociação” ao mundo político, algo que o filme japonês apenas sugeria de forma implícita.
Curiosidades sobre as versões anteriores
Antes de Animals, a única adaptação americana reconhecida de High and Low foi Highest 2 Lowest, dirigida por Spike Lee e estrelada por Denzel Washington. Essa versão inseriu uma crítica ao capitalismo negro, mostrando como a mesma estrutura pode ser moldada para diferentes contextos socioculturais.
Ben Affleck, em entrevista à Entertainment Weekly, afirmou nunca ter assistido ao filme de Kurosawa, mas reconheceu que adiou a produção de Animals para evitar comparações diretas com Highest 2 Lowest. Essa estratégia, embora curiosa, acabou gerando ainda mais atenção ao paralelo entre as obras.
A escolha da redação
Ao analisar Animals sob a lente de High and Low, fica claro que o remake não foi apenas uma coincidência de enredo, mas uma reinterpretação intencional para o cenário político americano. A ausência de um confronto final entre herói e vilão deixa o público desconfortável, reforçando a crítica à manipulação de narrativas para ganho pessoal.
Para quem ainda não assistiu, recomendamos observar como cada cena reflete a estrutura clássica de Kurosawa, mesmo que o visual seja modernizado. O filme funciona como um estudo de caso sobre como histórias universais podem ser transpostas para diferentes épocas e sistemas de valores, provando que o núcleo de um bom thriller – o dilema moral – permanece atemporal.


