Em 1998, Baldur’s Gate chegou às PCs e redefiniu o que um RPG de computador poderia ser, combinando regras de Dungeons & Dragons com liberdade de exploração que ainda hoje inspira desenvolvedores.
O que aconteceu
O final da década de 1990 foi um período fértil para os jogos de RPG. Enquanto consoles como Super Nintendo e PlayStation entregavam títulos japoneses memoráveis, o PC ganhou suas próprias lendas. Baldur’s Gate (1998) trouxe um mundo de Forgotten Realms repleto de diálogos ramificados e combate pausável, permitindo que o jogador comandasse até seis personagens simultaneamente. No mesmo período, Diablo (1996) introduziu a fórmula de loot‑driven action RPG, com masmorras geradas aleatoriamente que incentivavam o replay. Chrono Trigger (1995) surpreendeu ao misturar viagem no tempo, múltiplos finais e ataques combinados, tudo isso sob a direção de Hironobu Sakaguchi, Yuji Horii e Akira Toriyama. Final Fantasy VII (1997) elevou o padrão de produção com cut‑scenes cinematográficas, trilha sonora épica e a icônica história de Cloud e Sephiroth. Por fim, Pokémon Red e Blue (1996) transformaram o game boy em um fenômeno cultural, introduzindo a coleta de criaturas e trocas entre versões.
Como chegamos aqui
Esses cinco títulos não surgiram por acaso. A década de 90 foi marcada por avanços tecnológicos que permitiram mundos maiores e narrativas mais complexas. No caso de Baldur’s Gate, a BioWare aproveitou a popularidade de Dungeons & Dragons para criar um RPG de computador que equilibrava estratégia e storytelling. Diablo, por sua vez, tirou proveito da crescente popularidade da internet, permitindo multiplayer via LAN que mudou a forma como jogadores se relacionavam nos RPGs.
Chrono Trigger beneficiou‑se da potência do Super Nintendo, entregando gráficos vibrantes e um sistema de combate em tempo real que evitava a monotonia dos encontros aleatórios. Já Final Fantasy VII utilizou os CDs para armazenar vídeos de alta qualidade, algo impossível nos cartuchos da época, consolidando o RPG como um meio capaz de rivalizar com o cinema. Pokémon Red e Blue capitalizaram a portabilidade do Game Boy e a estratégia de lançar duas versões diferentes, forçando os jogadores a interagir para completar a Pokédex.
Esses jogos também estabeleceram mecânicas que se tornariam pilares do gênero: a pausa estratégica de Baldur’s Gate, o loot aleatório de Diablo, as múltiplas linhas temporais de Chrono Trigger, o sistema de materia de FFVII e a troca de Pokémon. Cada um, à sua maneira, influenciou títulos posteriores, desde títulos indie até grandes franquias AAA.
- Inovação mecânica: pausa no combate, geração procedural e sistemas de personalização profunda.
- Impacto narrativo: histórias que abordam temas como identidade, corporativismo e amizade.
- Comunidade: trocas de Pokémon, multiplayer de Diablo e mods de Baldur’s Gate criaram ecossistemas duradouros.
Entretanto, nem tudo são flores. A estética 16‑bit de Chrono Trigger ou os sprites pixelados de Baldur’s Gate podem afastar jogadores acostumados a gráficos hiper‑realistas. Além disso, a curva de aprendizado de sistemas complexos como o de Dungeons & Dragons pode ser intimidadora para iniciantes.
O que vem depois
Hoje, a nostalgia impulsiona remasterizações e re‑lancamentos. Baldur’s Gate III, embora desenvolvido pela Larian Studios, demonstra que a fórmula original ainda tem apelo comercial. Diablo IV, apesar de críticas ao ritmo, prova que a mecânica de loot ainda é lucrativa. Chrono Trigger recebeu um remake em 2022, preservando a essência enquanto moderniza a interface. Final Fantasy VII continua viva com sua trilogia de remakes, e Pokémon segue expandindo seu universo com lançamentos anuais.
O que ainda falta é um esforço coordenado para adaptar essas mecânicas ao design contemporâneo sem perder a alma dos originais. Por exemplo, um Baldur’s Gate que ofereça integração total com consoles modernos, ou um Chrono Trigger que expanda ainda mais as linhas temporais com decisões que realmente alterem o mundo.
Enquanto isso, a comunidade indie tem encontrado inspiração nesses clássicos, produzindo títulos como "Divinity: Original Sin" (inspirado em Baldur’s Gate) e "Hades" (que remete ao loop de loot de Diablo). O futuro dos RPGs parece depender de como os desenvolvedores equilibram reverência ao passado com inovação tecnológica.
Onde isso pode dar
Minha tese é clara: os RPGs dos anos 90 ainda são a espinha dorsal da evolução do gênero, e ignorá‑los seria um retrocesso cultural. Se os estúdios grandes continuarem a reciclar fórmulas sem aprofundar as mecânicas que fizeram esses jogos memoráveis, veremos um mercado saturado de títulos superficiais. Por outro lado, se houver um compromisso genuíno em reinterpretar essas ideias – como fazer um Baldur’s Gate com IA que gera diálogos dinâmicos ou um Pokémon que utiliza realidade aumentada de forma mais integrada – poderemos testemunar um renascimento que eleva o RPG a novos patamares.
O risco, porém, está na “militarização” da nostalgia: lançar remakes apenas para lucrar, sem melhorar a experiência, pode desgastar a confiança dos fãs. A resposta dos jogadores será decisiva; eles já mostraram que valorizam qualidade sobre quantidade. Assim, o caminho a seguir é claro: respeitar a herança dos anos 90, mas inovar de forma inteligente.


