A BBC produziu três séries de fantasia que pegaram lendas conhecidas — Rei Arthur, Atlântida e robin hood — e as reinventaram com abordagens modernas, somando 129 episódios no total. merlin (2008-2012) lidera com 65 episódios, seguida por Robin Hood (2006-2009) com 39, e atlantis (2013-2015) com 25.
Contexto: por que importa
Quando se pensa em fantasia na televisão, o público costuma associar o gênero a mundos originais como Game of Thrones. Mas a fantasia também brilha quando adapta mitos fundadores da cultura ocidental. A emissora pública britânica tem tradição forte nesse território: suas produções costumam equilibrar orçamento contido com roteiros inteligentes, elenco afiado e liberdade criativa para subverter o material de origem sem perder o respeito pela fonte.
As três séries escolhidas ilustram bem esse equilíbrio. Cada uma pega um mito consolidado — o mago Merlim, a cidade perdida de Atlântida, o fora-da-lei de Sherwood — e aplica uma torção narrativa que torna a história acessível para quem não conhece a lenda original e surpreendente para quem conhece.
Merlin: a origem do mago antes da lenda
Merlin estreou em 2008 e rodou por cinco temporadas. A premissa central inverte a figura clássica: em vez do sábio barbudo conselheiro do Rei Arthur, encontramos um jovem Merlin (Colin Morgan) chegando a Camelot num reino onde a magia é proibida sob pena de morte. Ele precisa ocultar seus poderes enquanto serve como criado do príncipe Arthur (Bradley James), que aqui é retratado como um jovem arrogante e imaturo, longe do nobre rei das lendas.
A dinâmica entre os dois impulsiona a série. A amizade nasce do atrito, da relutância e de momentos em que são forçados a confiar um no outro. Katie McGrath vive Morgana, Angel Coulby interpreta Guinevere, e o elenco de apoio traz veteranos como Anthony Head (o Giles de buffy) como Uther Pendragon e John Hurt como a voz do grande dragão. A série mistura "monstro da semana" com arco serializado, amadurecendo ao longo das temporadas até um final que emociona justamente por ter construído a lenda passo a passo.
Atlantis: mitologia grega via viagem no tempo
Atlantis estreou em 2013 e durou duas temporadas. O ponto de partida é deliberadamente absurdo: Jason (Jack Donnelly), um homem do presente, pilota um minissubmarino para investigar o desaparecimento do pai e é sugado por uma luz branca, acordando nas praias de Atlântida. A cidade é governada pelo Rei Minos (Alexander Siddig), enquanto a rainha Pasifae (Sarah Parish) trama pela coroa.
O que se segue é uma colagem alegre de mitos gregos: minotauro, medusa, Orfeu, Pítagoras (sim, o matemático) aparecendo como personagem cômico que "surta" com triângulos. A série assume o tom camp, não se leva a sério demais e entrega diversão descompromissada. Para o público brasileiro acostumado com fantasia mais sombria, Atlantis funciona como um respiro leve — uma aventura familiar com monstros, deuses e reviravoltas previsíveis, mas executadas com carinho.
Robin Hood: o fora-da-lei humano e sujo
Robin Hood (2006-2009) teve três temporadas e 39 episódios. Jonas Armstrong vive um Robin mais jovem que o habitual, marcado pela experiência na Terceira Cruzada. Não é o herói imaculado das baladas medievais: carrega culpa, cicatrizes e uma moralidade cinzenta. Marian (Lucy Griffiths) não é donzela à espera de resgate — ela tem agência, habilidades e um noivado prévio com Robin que adiciona tensão romântica realista.
O Xerife de Nottingham (Keith Allen) foge da caricatura vilanesca e ganha camadas de crueldade burocrática. O diálogo adota gírias e ritmo contemporâneos, o que na época gerou críticas de puristas, mas hoje soa como escolha deliberada para aproximar o público jovem. A série tira o mito do pedestal acadêmico e o planta na lama, no sangue e na política suja da Inglaterra medieval.
Reação dos fãs e mercado
As três séries mantêm bases de fãs ativas em fóruns, Reddit e convenções. Merlin é a mais cultuada: seu final ainda gera debates anuais sobre se a espera pelo retorno de Arthur foi satisfatória. Robin Hood divide opiniões — alguns rejeitam o tom moderno, outros defendem que envelheceu melhor justamente por não tentar ser "autêntico". Atlantis é lembrada com carinho nostálgico, mas raramente citada como "obra-prima"; seu valor está na diversão despretensiosa.
No streaming, a disponibilidade varia por região. No Brasil, Merlin já figurou no catálogo da Globoplay e Netflix em janelas passadas; Robin Hood e Atlantis aparecem esporadicamente em plataformas de aluguel digital. A BBC Studios licencia o catálogo por territórios, então vale checar JustWatch ou Reelgood antes de maratonar.
Para ficar no radar
- Merlin continua sendo a porta de entrada ideal: 65 episódios com arco fechado, elenco carismático e reviravoltas que recompensam a paciência.
- Atlantis funciona como "comfort watch" — episódios autossuficientes, mitologia grega acessível, tom leve.
- Robin Hood agrada quem quer fantasia histórica com protagonista moralmente complexo e romance com química real.
- Todas as três mostram como a BBC transforma orçamento modesto em narrativa forte: roteiro e atuação compensam efeitos visuais limitados.
- Se você gostou de The Witcher ou House of the Dragon e quer ver como a TV britânica trata mito com irreverência, comece por Merlin.


