Por que Behemoth! é o papel que Pedro Pascal merecia
Pedro Pascal finalmente encontrou um protagonista à altura do seu talento em Behemoth!, o novo drama de Tony Gilroy que estreou no Festival de Cinema de Nova York. O ator chileno-americano interpreta Alex Serian, um violoncelista brilhante, mas emocionalmente indisponível, que retorna a Los Angeles após décadas na estrada. A atuação rendeu a melhor nota da carreira do ator segundo a crítica do /Film: 8,5 de 10. O filme chega aos cinemas brasileiros em 4 de dezembro de 2026 pela Searchlight Pictures.
-
O personagem mais complexo da carreira de Pascal
Alex Serian não é herói nem vilão — é um canalha charmoso que seduz mulheres casadas, foge da mãe doente e evita qualquer vulnerabilidade real. Pascal carrega o filme com um "olhar de mil jardas" que comunica décadas de bagagem emocional sem uma linha de diálogo. Diferente de The Mandalorian (onde 90% é ADR) ou Quarteto Fantástico (miscasting evidente), aqui o roteiro parece escrito sob medida para os pontos fortes do ator: o carisma perigoso, a inteligência fria e a capacidade de tornar o antipático magnético.
-
Olivia Wilde rouba todas as cenas em que aparece
Carol Spedding, a amante rejeitada vivida por Wilde, é um furacão de energia caótica que arrasta Alex de volta à realidade que ele tenta ignorar. A atriz faz "demais" no melhor sentido possível: gestos exagerados, timing cômico afiado e uma vulnerabilidade inesperada por baixo do teatro. A dinâmica entre os dois resume o tom do filme — drama sério que não se leva a sério demais, com humor seco surgindo nos momentos mais tensos. Wilde prova que merece papéis dramáticos mais substanciais.
-
Elenco de apoio que parece uma orquestra bem afinada
Will Arnett surpreende como Andy, o irmão semi-afastado cuja rebeldia juvenil virou burnout de meia-idade — atuação contida, longe do registro cômico habitual. Margarita Levieva (de Demolidor: Renascido) brilha em participação breve. Kaya Ralls traz doçura como Bronte, a jovem musicista que desperta instinto paternal em Alex. Eva Victor, revelação de Sorry, Baby, entrega pathos silencioso como Nadia, ex-namorada que carrega o peso do passado. Cada ator eleva o material sem competir com Pascal.
-
Trilha sonora assinada por peso-pesados de Hollywood
A sessão de gravação que estrutura o filme apresenta composições originais de Michael Giacchino (Up, The Batman), James Newton Howard (Batman Begins), Henry Jackman (Capitão América: Soldado Invernal), Alan Silvestri (De Volta para o Futuro) e Michael Abels (Nós). Gilroy usa cada faixa como gatilho de memória, transportando o público entre flashbacks de diferentes épocas da vida de Alex. Há até uma piada sonora cartoonish que quebra a tensão de "peça de câmara" — prova de que o diretor conhece o poder da música no cinema.
-
Estrutura narrativa que recompensa a atenção
O filme abre in media res na sessão de gravação, depois desenrola 127 minutos majoritariamente em flashbacks longos, não lineares, costurados por cues musicais. Poderia ser confuso, mas o roteiro hermético de Gilroy torna cada salto temporal orgânico — a música não é pano de fundo, é o fio condutor da psique do protagonista. A revelação final, só possível através da arte musical, ecoa Inside Llewyn Davis dos irmãos Coen, mas com resolução menos ambígua e mais catártica.
-
Tony Gilroy de volta ao território de "Michael Clayton"
Após o sucesso de Andor (série de Star Wars aclamada pela maturidade política), Gilroy retorna ao drama adulto sobre profissionais competentes em ambientes corruptos — só que agora o palco é uma orquestra sinfônica, não um escritório de advocacia. O DNA de thriller corporativo permanece: diálogos afiados, moralidade cinzenta, tensão construída no silêncio entre as falas. Behemoth! prova que Gilroy não precisa de galáxias distantes para fazer seu melhor trabalho; basta um quarto de gravação e personagens reais.
-
Final que evita o final "certinho" de filme de prestígio
A crítica aponta que o desfecho parece "um pouco pat demais" — mas isso pode ser intencional. Gilroy argumenta que a jornada, a descoberta e o caminho de maior resistência importam mais que o destino. Alex não vira santo, não conserta tudo, não ganha a garota. Ele apenas para de fugir por um momento e toca. Para um filme sobre um homem que passa a vida inteira escapando, esse pequeno ato de presença soa mais verdadeiro que qualquer redenção hollywoodiana.
Vale a pena?
Se você gosta de cinema adulto, roteiro inteligente e atuações que justificam o ingresso, Behemoth! é obrigatório. Pascal sozinho vale a sessão — é raro ver um astro desse calibre finalmente liberado de franquias para fazer o que faz de melhor: habitar um homem contraditório, feio por dentro e irresistível por fora. Gilroy dirige com a confiança de quem não precisa provar nada a ninguém. A trilha sonora sozinha já justifica o sistema de som do cinema.
Não é filme de pipoca. Não tem cena pós-créditos. Não vira meme no TikTok (talvez a cara de Wilde vire). É cinema de gente grande, feito por gente grande, para gente grande. Estreia 4 de dezembro. Programe-se.


