A game science soltou 15 minutos de gameplay de Black Myth: Zhong Kui, seu próximo action RPG single-player, e a diferença para Wukong salta aos olhos: nada de Jornada ao Oeste, o protagonista agora é Zhong Kui — o exorcista que pinta a cara com sangue de demônios — e o tom é de julgamento, não de peregrinação.
O que aconteceu
O trailer chegou sem alarde prévio, direto nos canais do estúdio. São 15 minutos capturados de um work-in-progress rodando em proporção 21:9, com a ressalva padrão: tudo pode mudar até o lançamento. O vídeo foca no protagonista e dá pinceladas da narrativa — um poema em inglês abre a apresentação, falando de sangue na lâmina, velhos amigos em sonhos e a estrada dos justos que "corre longa". A Game Science confirmou plataformas: PC e "outras principais", mas não há data de lançamento. O projeto segue em estágio inicial.
Como chegamos aqui
Black Myth: Wukong explodiu em 2024 como o primeiro AAA chinês de alcance global genuíno. Vendeu milhões, levou prêmios e provou que a Game Science domina combat design, direção de arte e otimização técnica num nível que estúdios ocidentais levam décadas para atingir. O sucesso criou uma expectativa impossível: o que vem depois tem que ser maior, mais ousado, diferente.
Zhong Kui resolve parte desse problema trocando o macaco trapaceiro por uma figura de autoridade moral. Na mitologia chinesa, Zhong Kui é o rei dos caçadores de fantasmas, aquele que comanda legiões de demônios menores para prender os maiores. Ele não pede permissão, não faz jornada de autodescoberta — ele julga. O poema do trailer reforça isso: "quem diz que o submundo é longe? Melhor ainda — mais uma vez caminharei por ele". É a fala de quem já conhece o inferno e volta por obrigação, não por curiosidade.
A escolha também afasta o estúdio da sombra de Journey to the West. Todo mundo conhece Sun Wukong; poucos fora da Ásia sabem detalhes de Zhong Kui. Isso dá liberdade criativa: a Game Science pode inventar mecânicas, estrutura de missões e arcos de personagem sem fãs comparando cada frame a um romance clássico de 500 anos.
O que vem depois
O trailer levanta mais perguntas do que responde — e isso é deliberado. Aqui está o que a redação aposta que define o próximo ano de desenvolvimento:
- Sistema de julgamento: o conceito de "pintar rouge com sangue" sugere mecânica de execução ou finalização que alimenta poder. Algo tipo Devil May Cry encontra Sekiro, mas ligado a moralidade — talvez o jogador decida quem merece morrer e quem pode ser redimido.
- Estrutura não-linear: Wukong era capítulo a capítulo. Um exorcista que "caminha pelo submundo" implica hubs, investigação, escolha de alvos. Pode haver elemento de roguelite ou missões de caçada estilo Monster Hunter.
- Tom maduro, não apenas sombrio: o poema fala de amor, rancor, velhice. Não é edgy por ser edgy; é o peso de quem viu gerações passarem. Se a escrita acompanhar, teremos algo raro: um action RPG com texto de verdade.
- Multiplataforma real desde o dia um: Wukong lançou no PS5 e PC, xbox chegou depois. A menção a "PC e outras plataformas principais" no mesmo fôlego sugere lançamento simultâneo nas três grandes — lição aprendida.
O perigo é a Game Science cair na própria armadilha: fazer "Wukong com skin de exorcista". O combate mostrado tem peso, parry preciso, variedade de armas — tudo muito competente, muito familiar. A identidade própria virá dos sistemas que orbitam a luta: progressão, investigação, consequência moral. Se isso for apenas "mate demônios, assista cutscene, repita", o brilho do poema vira marketing vazio.
O lado que ninguém tá vendo
A aposta da redação: Black Myth: Zhong Kui lança antes de 2027. A Game Science mostrou 15 minutos de gameplay jogável, não apenas cinemática — isso indica vertical slice avançado. Dois a três anos de polimento, localização e QA cabem no cronograma de um estúdio que já tem pipeline, engine própria e capital do sucesso anterior.
Outro ponto: Zhong Kui abre portas para franchise de antologia mitológica. Wukong = truque. Zhong Kui = lei. Próximo pode ser Nezha (rebelião), ou Bai Suzhen (amor proibido). Cada jogo com mecânicas centrais diferentes, unidos só pelo selo "Black Myth". A Game Science vira a FromSoftware da mitologia chinesa — e isso vale mais que qualquer sequência direta.
Por enquanto, o trailer cumpre o papel: prova que o estúdio não parou, não repetiu a fórmula cegamente, e tem ambição narrativa à altura da técnica. O resto é tempo — e a Game Science mostrou que sabe gerenciar o seu.


