Hong Kong retirou Chainsmoker Cat — comédia negra sobre garotas-gato viciadas em nicotina — do catálogo do Animation Crazy e do YouTube da Ani-One Asia sob a alegação de que a série faz "publicidade a produtos de fumo", violando os artigos 13B e 14 da Smoking (Public Health) Ordinance. A ironia: a obra expõe a feiura do vício sem glamour, e segue disponível em Taiwan (mesma plataforma) e na Netflix global.
Seis pontos que mostram por que a decisão de Hong Kong não faz sentido
- A lei foi feita para anúncios, não para ficção crítica. O artigo 13B proíbe a disseminação online de "anúncios de produtos para fumar". Chainsmoker Cat não vende cigarro; mostra personagens tossindo, tremendo em abstinência e acendendo vários ao mesmo tempo como retrato de dependência, não de estilo de vida.
- O próprio comitê de ética de transmissão do Japão (BPO) já analisou a série. Em sessão recente, um membro do BPO — organização que regula conteúdo na TV japonesa — entendeu que a obra está dentro dos limites da liberdade de expressão. Hong Kong ignorou esse precedente e aplicou a lei de forma literal, sem considerar contexto narrativo.
- A censura é seletiva e geográfica. O Animation Crazy é operado pelo fórum taiwanês Bahamut. Em Taiwan, a série continua no ar. No YouTube, a Ani-One Asia bloqueou só em Hong Kong. Se o conteúdo fosse intrinsecamente perigoso, a remoção seria global, não regional.
- O mangá está vendendo mais justamente por causa do anime. A Kodansha anunciou reimpressão de todos os volumes de Chainsmoker Cat (publicado na Weekly Young Magazine) após o aumento de vendas impulsionado pela adaptação. O público entendeu a mensagem; o regulador, não.
- Fumar é legal para adultos em Hong Kong. A contradição salta aos olhos: um adulto pode comprar e fumar cigarros legalmente, mas não pode assistir a uma animação que mostra as consequências ruins desse hábito. A lei protege o consumidor real, mas pune a representação artística que o desincentiva.
- Cria precedente perigoso para qualquer obra com temas adultos. Se representação de vício vira "publicidade", séries sobre alcoolismo, jogos de azar ou drogas ilícitas correm o mesmo risco. A fronteira entre "retratar" e "promover" some quando o regulador não lê a obra.
O que está em jogo não é só um anime de gatinhas
A decisão de Hong Kong expõe um problema maior: reguladores aplicando leis antigas a mídias novas sem mediação de especialistas em linguagem audiovisual. Chainsmoker Cat, dirigido por Taku Kimura no estúdio Bibury Animation Studios, usa o absurdo e o humor ácido para tornar o cigarro repulsivo — exatamente o objetivo de campanhas de saúde pública. Punir a obra por "publicidade ao tabaco" é como multar um filme anti-guerra por mostrar tiros.
Enquanto isso, a Netflix mantém a série no catálogo global, e a Seven Seas segue publicando o mangá em inglês. O mercado entendeu que a obra é crítica, não apologética. O Departamento de Saúde de Hong Kong preferiu a leitura rasa: viu fumaça, viu violação. O resultado é uma censura que protege ninguém e afasta o público de um conteúdo que, paradoxalmente, faz o trabalho de prevenção melhor que qualquer cartaz de aviso.
O lado que ninguém tá vendo
- O banimento deu publicidade gratuita à série — o efeito Streisand em ação.
- Fãs em Hong Kong migram para vpns ou fontes não oficiais, perdendo a versão legal e legendada.
- Estúdios japoneses podem passar a evitar temas de dependência para não barrar distribuição na região.
- A receita de multa (até 50 mil HKD + diárias) é irrisória perto do custo reputacional de parecer retrógrado.
Chainsmoker Cat continua no ar onde reguladores leram a sinopse antes de assinar a ordem. Em Hong Kong, ficou o vácuo — e a fumaça.


