O filme Coyote vs Acme chegou aos cinemas em 2026, trazendo um híbrido live‑action/ animação que coloca Wile E. Coyote no centro da trama e demonstra que a franquia Looney Tunes pode sobreviver sem Bugs Bunny como estrela.
O que aconteceu
Depois de anos de impasse entre a Warner Bros. Discovery e seu CEO David Zaslav, que aparentemente preferiam manter os personagens clássicos “fora dos holofotes”, a produtora independente Ketchup Entertainment conseguiu liberar Coyote vs Acme. O longa‑metraje combina cenas filmadas em locação com animação tradicional, lembrando o estilo de Who Framed Roger Rabbit, mas com um tom muito mais anti‑corporativo. O roteiro, escrito por Samy Burch (com colaboração de James Gunn e Jeremy Slater), traz uma história de vingança corporativa que se desenrola no universo dos desenhos animados.
Eric Bauza, considerado o sucessor de Mel Blanc, dá voz a quase todos os personagens masculinos, incluindo o próprio Coiote, Daffy Duck e até um breve cameo de Bugs Bunny. A crítica já apontou que, embora a qualidade da animação não alcance o brilho de um Space Jam moderno, o roteiro compensa com humor inteligente e um coração que lembra os primeiros curtas‑metragem da era dourada.
Como chegamos aqui
O caminho até a estreia de Coyote vs Acme foi marcado por decisões estratégicas da Warner que deixaram o público faminto por novidades. A empresa, que detém os direitos da franquia Looney Tunes, optou por “cansar” o catálogo, adiando lançamentos e, segundo relatos, bloqueando outras produtoras de financiar um filme próprio. Essa postura acabou gerando uma espécie de “cruzada” corporativa que, paradoxalmente, acabou alimentando a narrativa anti‑monopólio do próprio filme.
Enquanto isso, Ketchup Entertainment – conhecida por assumir projetos que grandes estúdios consideram arriscados – viu na situação uma oportunidade de reviver o espírito dos desenhos. O estúdio investiu em tecnologia de captura de movimento e em animadores veteranos, permitindo que personagens como Wile E. Coyote, tradicionalmente relegado a cenas curtas de falha cômica, ganhassem profundidade psicológica. O resultado é um Coiote que não é apenas um caçador frustrado, mas um “underdog” solitário, com um coração de ouro e uma vontade de mudar o sistema que o explora.
Além disso, o filme traz à tona uma discussão sobre a dependência excessiva de Bugs Bunny como “cara” da franquia. Embora Bugs apareça em uma breve sequência, a narrativa demonstra que outros personagens – Daffy Duck, Porky Pig, e até o político‑cartoon Elmer Fudd – podem sustentar histórias completas. Essa escolha reflete um movimento já visto em produções como The Day the Earth Blew Up, onde Daffy e Porky foram protagonistas sem a necessidade de um coadjuvante canino.
- Warner Bros. Discovery evitou financiar novos projetos Looney Tunes.
- Ketchup Entertainment assumiu o risco e produziu um híbrido live‑action/ animação.
- O roteiro de Samy Burch trouxe um tom anti‑corporativo alinhado ao contexto atual.
- Eric Bauza unificou a voz dos personagens, reforçando a identidade sonora da franquia.
- O filme mostrou que personagens secundários podem carregar a trama sem Bugs Bunny.
O que vem depois
Se Coyote vs Acme alcançar sucesso de bilheteria – ainda não confirmado – a porta está aberta para uma nova geração de filmes Looney Tunes que explorem personagens menos conhecidos. O artigo menciona, por exemplo, um projeto em desenvolvimento de Jorge R. Gutiérrez sobre Speedy Gonzales, que poderia reavaliar a história controversa do personagem e reforçar sua popularidade na América Latina.
Outra implicação importante é a forma como o universo dos desenhos será tratado nas próximas produções. O filme estabelece um modelo em que os personagens animados são “atores” dentro de um mundo real, muito parecido com a abordagem dos Muppets. Essa estratégia pode servir de blueprint para futuros lançamentos, permitindo que personagens como Marvin the Martian ou até novos heróis de animação encontrem seu espaço sem depender de aparições de “camarote” de Bugs.
Entretanto, ainda há dúvidas sobre a viabilidade comercial de um modelo tão híbrido. A integração de animação e live‑action exige investimentos significativos em tecnologia e talento, e nem todas as produtoras estão dispostas a arcar com esses custos. Caso Coyote vs Acme não alcance o retorno esperado, a indústria pode recuar para projetos mais seguros, como animações puras ou adaptações de séries de TV.
O que fica claro, porém, é que o filme trouxe à tona uma discussão essencial: a franquia Looney Tunes tem mais de um rosto, e explorar essa pluralidade pode ser a chave para sua longevidade. Enquanto os executivos da Warner ainda ponderam sobre a direção da marca, os fãs já pedem por mais histórias que deem voz a personagens como Daffy, Porky e, claro, o próprio Coiote.
Onde isso pode dar
Se a fórmula de Coyote vs Acme provar ser lucrativa, podemos esperar uma série de spin‑offs focados em personagens que antes viviam nas sombras dos curtas‑metragem. A estratégia de dar protagonismo a um “underdog” pode ser repetida, trazendo narrativas mais maduras e socialmente engajadas, algo que tem atraído o público adulto que cresceu com esses desenhos.
Por outro lado, há o risco de saturar o mercado com projetos que tentam ser “democráticos” demais, diluindo a identidade única que fez dos Looney Tunes um ícone cultural. O equilíbrio entre inovação e reverência ao legado será o grande desafio para os produtores que desejam manter a franquia relevante nos próximos anos.
Em última análise, Coyote vs Acme nos mostra que a criatividade ainda tem espaço para surpreender, mesmo em um universo tão estudado quanto o dos Looney Tunes. Seja qual for o caminho, o importante é que a conversa sobre quem realmente merece o centro do palco está mais viva do que nunca.


