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Cinema e Series

Death Note (2017): Willem Dafoe brilhou, mas o filme afundou

· · 5 min de leitura
Homem em roupa de academia segurando um caderno preto, fazendo agachamento com halteres ao fundo
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TL;DR: A Netflix tentou adaptar o mangá Death Note em 2017, mas a compressão da trama e o elenco branco arruinaram o projeto, mesmo com Willem Dafoe entregando uma performance de nível divino.

O que aconteceu

Em 24 de agosto de 2017, a Netflix lançou Death Note, dirigido por Adam Wingard. O longa trouxe a história de Light Turner (interpretado por Nat Wolff), um estudante que encontra um caderno capaz de matar quem tem seu nome escrito nas páginas. Ao seu lado, o detetive enigmático L (LaKeith Stanfield) tenta desvendar a série de mortes. O elenco também incluía Margaret Qualley como Mia Sutton, interesse romântico de Light, e o lendário Willem Dafoe como a voz de Ryuk, o shinigami que entrega o caderno ao mundo humano.

Apesar da expectativa gerada pela presença de Dafoe, o filme foi duramente criticado: 36% no Rotten Tomatoes e apenas 26% de aprovação do público. A crítica apontou falhas de roteiro, decisões de casting e a perda da essência psicológica que tornou o mangá e o anime clássicos.

Como chegamos aqui

Para entender o desastre, precisamos retroceder à história das adaptações ocidentais de animes. Hollywood tem um histórico de "whitewashing" e de simplificar narrativas complexas para caber em um formato de filme. Exemplos famosos incluem Dragonball Evolution (2016) e Ghost in the Shell (2017), ambos condenados por desrespeitar a identidade cultural e a profundidade temática das obras originais.

Quando a Netflix decidiu adaptar Death Note, tentou seguir a mesma fórmula: contratar estrelas reconhecíveis (Willem Dafoe) e condensar uma saga de 12 volumes em 1h30 de filme. O resultado foi uma trama que, em vez de explorar o duelo intelectual entre Light e L, reduziu tudo a uma caça‑caça policial comum. O personagem Light, que no mangá evolui de um estudante exemplar a um deus assassino motivado por seu próprio ego, passa a agir por impulso romântico graças à influência de Mia, alterando drasticamente sua motivação.

Outro ponto crítico foi a escolha de tornar Ryuk totalmente digital. Embora a intenção fosse criar um ser sobrenatural impressionante, o processo de captura de movimento foi dividido: Jason Liles, um ator de sete pés, interpretou o corpo no set, enquanto Dafoe gravou a voz e fez captura facial separada. Essa separação fez Ryuk perder a presença física que Dafoe poderia ter trazido, transformando o personagem em um mero efeito visual.

Mesmo assim, nem tudo foi ruína total. Adam Wingard mostrou talento visual, entregando cenas visualmente impactantes – algo que já havia demonstrado em Godzilla vs. Kong. O público, inicialmente, estava animado para ver Dafoe como Ryuk, e sua atuação vocal foi, de fato, um dos poucos pontos altos do filme.

  • Pró: direção de arte impressionante e fotografia atmosférica.
  • Pró: Willem Dafoe entregou uma voz icônica para Ryuk.
  • Contra: Roteiro comprimido que elimina o jogo de gato‑e‑rato entre Light e L.
  • Contra: Elenco majoritariamente branco, afastando a identidade japonesa da obra.
  • Contra: Uso de CGI para Ryuk que acabou despersonalizando o shinigami.

Esses erros não foram isolados. Quatro anos depois, a Netflix tentou novamente com Cowboy Bebop, investindo em um elenco diversificado e mantendo o tom original, mas acabou criando novas subtramas que desviaram do espírito da série. Só recentemente a plataforma parece ter aprendido a lição, ao produzir One Piece com a participação direta de Eiichiro Oda, respeitando a ordem dos arcos e o ritmo da história.

O que vem depois

O futuro das adaptações live‑action de animes ainda é incerto, mas alguns sinais apontam para uma mudança de postura. A Netflix tem demonstrado maior abertura para consultoria dos criadores originais, como visto em One Piece e na estrutura episódica de Avatar: The Last Airbender, que seguiu os três livros do anime. Essa abordagem pode evitar o erro de condensar histórias densas em um único filme.

Entretanto, a pressão por lançamentos rápidos e por atrair audiências globais ainda pode levar a decisões de casting que ignoram a origem cultural. Enquanto a indústria não encontrar um equilíbrio entre fidelidade ao material e acessibilidade, projetos como Death Note servirão de alerta.

Para os fãs, a lição é clara: a presença de um ator de calibre como Willem Dafoe não compensa uma estrutura narrativa falha. As adaptações precisam respeitar a complexidade dos personagens e a mitologia que os tornou amados.

Onde isso pode dar

Se a Netflix realmente internalizar o fracasso de Death Note, podemos esperar duas tendências. Primeiro, mais colaborações diretas com mangakás e diretores japoneses, garantindo que o ritmo e os temas essenciais sejam preservados. Segundo, um retorno ao formato de minisséries, que permite explorar arcos longos sem sacrificar o desenvolvimento de personagens.

Por outro lado, caso a plataforma continue priorizando o apelo de mercado sobre a integridade artística, veremos mais adaptações que falham em capturar a alma das obras originais, reforçando a ideia de que "uma boa escolha de elenco não salva um mau roteiro".

Em última análise, o caso de Death Note mostra que a indústria ainda tem muito a aprender sobre como traduzir o universo dos animes para o cinema ocidental. A esperança é que, ao reconhecer esses erros, os próximos projetos consigam equilibrar espetáculo e respeito à fonte, entregando algo que agrade tanto aos puristas quanto ao público amplo.

Perguntas frequentes

Por que a Netflix adaptou Death Note em 2017?
A plataforma buscou capitalizar a popularidade do mangá e do anime, acreditando que um filme poderia atrair tanto fãs quanto novos espectadores.
Willem Dafoe realmente fez um bom trabalho como Ryuk?
Sim, sua voz trouxe a presença sinistra do shinigami, mas a falta de presença física no filme limitou o impacto da performance.
Quais lições a Netflix aprendeu com Death Note?
A necessidade de respeitar a estrutura narrativa original, evitar whitewashing e envolver criadores japoneses nas decisões de produção.
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