Season of the Witch, dirigido por George A. Romero, surge como um drama ocultista feminista que ainda escapa da maioria das discussões sobre o mestre dos zumbis.
Por que Season of the Witch merece atenção
- Direção subversiva de Romero. Embora seja lembrado por criar o gênero zombie, Romero demonstra aqui um controle de tom mais delicado, trocando sangue por suspense psicológico. O ritmo deliberadamente lento permite que a atmosfera se construa como uma névoa densa, revelando detalhes apenas quando o espectador está pronto.
- Temática feminista à frente de seu tempo. O filme coloca mulheres no centro da narrativa, não como vítimas passivas, mas como agentes que buscam autonomia através de rituais proibidos. Essa escolha contrasta fortemente com os papéis tradicionais da década de 70, oferecendo uma crítica sutil ao patriarcado doméstico.
- Ocultismo como metáfora social. Os símbolos esotéricos não servem apenas para assustar; eles representam o desejo de romper com convenções opressoras. Cada círculo traçado e cada invocação sugerem uma busca por poder que a sociedade da época negava às mulheres.
- Performance das atrizes. As protagonistas entregam interpretações que mesclam vulnerabilidade e determinação, criando personagens tridimensionais que permanecem na memória do espectador. A química entre elas reforça a ideia de sororidade como força motriz da trama.
- Influência silenciosa em obras posteriores. Embora não tenha alcançado grande popularidade, o filme pode ser rastreado em títulos que exploram o feminismo ocultista, como certas produções indie dos anos 2000. Essa linhagem invisível demonstra que Romero plantou sementes fora do seu próprio gênero.
- Falta de reconhecimento comercial. O lançamento recebeu pouca divulgação, o que acabou relegando-o a arquivos obscuros. Essa marginalização, porém, alimenta seu status cult e atrai cinéfilos que buscam tesouros esquecidos.
- Roteiro e ritmo deliberado. O script evita clichês de terror barato, optando por diálogos que revelam gradualmente as motivações das personagens. Essa construção lenta pode ser vista como um ponto fraco para quem espera ação constante, mas funciona como um convite à reflexão.
- Valor cult atual. Nos círculos de colecionadores, Season of the Witch é citado como um exemplo de como o cinema pode unir horror, feminismo e misticismo. A escassez de cópias em alta qualidade aumenta seu apelo entre os aficionados por raridades.
O que falta saber sobre a produção
O filme foi originalmente anunciado sob o título Hungry Wives, indicando uma intenção comercial que acabou sendo eclipsada pela abordagem mais artística que Romero adotou. Essa mudança de nome reflete a própria tensão entre mercado e mensagem que permeia a obra.
Além de Romero, a produção contou com um pequeno elenco de atores que, embora pouco conhecidos, entregaram performances que ainda hoje são estudadas em cursos de cinema independente. O uso de locações reais, ao invés de sets artificiais, confere ao filme uma sensação de autenticidade que poucos títulos de terror da época conseguiram reproduzir.
Aspectos que dividem críticos
- Alguns críticos apontam que o ritmo lento pode afastar espectadores acostumados a sustos constantes.
- Outros elogiam a construção atmosférica como um exemplo de horror psicológico bem executado.
- Há ainda quem discuta se a carga feminista está suficientemente explícita ou se fica subentendida demais.
"Romero sempre buscou refletir a sociedade através do horror, seja com zumbis ou com rituais ocultos."
Onde isso pode dar
Reavaliar Season of the Witch pode abrir portas para uma nova onda de análises que colocam o ocultismo como ferramenta de crítica social, especialmente em obras dirigidas por cineastas tradicionalmente associados a outros gêneros. Se mais plataformas de streaming começarem a disponibilizar o filme, o debate sobre sua relevância feminista pode ganhar novo fôlego.
Além disso, a redescoberta do título pode inspirar cineastas contemporâneos a mesclar horror com questões de gênero de forma mais ousada, provando que o legado de Romero vai muito além dos mortos-vivos.
O lado que ninguém está vendo
O que costuma passar despercebido é o modo como o filme utiliza o silêncio. Em várias cenas, o som é quase inexistente, forçando o espectador a focar nos gestos e nas expressões das personagens. Essa escolha sonora, embora simples, cria um espaço onde o medo nasce da própria imaginação.
Outro ponto oculto é a simbologia dos objetos cotidianos – como a colher de chá que se transforma em um talismã – que reforçam a ideia de que o poder pode emergir dos detalhes mais triviais. Essa sutileza faz de Season of the Witch um estudo de caso perfeito para quem deseja entender como o horror pode ser usado como crítica cultural sem recorrer a violência explícita.
Em suma, o filme não é apenas um item de curiosidade; é uma peça que desafia a forma como categorizamos o trabalho de Romero e nos convida a repensar o papel do feminismo dentro do terror ocultista.


