Hayley Atwell subiu ao palco da For the Love of Fantasy and Sci-Fi em Londres e não economizou palavras: seu retorno como Capitã Carter em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura foi "desrespeitoso". A atriz descreveu a cena onde a personagem diz "eu poderia fazer isso o dia todo" antes de ser arremessada como um frisbee e morta em segundos pela Feiticeira Escarlate. "E aí a gente fica: 'Não, você não podia'", ironizou Atwell, reproduzindo a reação do público que achou a versão live-action fraca.
O que aconteceu no set: a versão da atriz vs. a versão da Marvel
Segundo Atwell, ela tentou contribuir com ideias para a cena. Os cineastas disseram que ouviram, mas a resposta final foi não. O resultado é uma sequência onde nenhum membro dos Illuminati — grupo que nos quadrinhos antecipou as incursões — consegue sequer arranhar Wanda Maximoff. Reed Richards (John Krasinski) tem a boca selada e a cabeça explodida. Raio Negro (Anson Mount) morre pelo próprio poder. Capitã Marvel (Lashana Lynch) e Capitã Carter caem sem oferecer resistência real. Professor X (Patrick Stewart) tem o pescoço torcido dentro da mente de Wanda.
O problema não é a violência — é a função narrativa. Esses personagens existem apenas para morrer e provar o quão poderosa a vilã está. É o clássico "mulher na geladeira" aplicado a heróis consagrados, só que aqui a geladeira é o multiverso inteiro.
Capitã Carter no live-action vs. Capitã Carter em What If...?
A comparação é inevitável e cruel. Na série animada What If...?, Peggy Carter recebe o soro do supersoldado, lidera os Aliados, carrega o escudo por temporadas inteiras e constrói um arco completo: da soldado leal à capitã que questiona ordens, perde o amor, viaja no tempo e salva realidades. Ela tem agência, falhas, crescimento.
No live-action, ela surge, fala a frase icônica do Steve Rogers, vira projétil e some. A Marvel usou o design popular da animação — o uniforme, o escudo, a pose — mas esvaziou o que tornava a versão animada especial: tempo de tela para ser alguém, não apenas um easter egg ambulante.
O retorno em Vingadores: Apocalipse: reparação ou novo desperdício?
Atwell confirmou em painel na San Diego Comic-Con que volta como Agente Carter no próximo filme dos Vingadores, e que "será muito mais que um cameo". A promessa soa bem, mas o histórico recente do MCU com personagens legados gera ceticismo. As Marvels tentou dar protagonismo a Monica Rambeau e Kamala Khan junto com Carol Danvers e o resultado foi um filme que a própria Disney tratou como passo em falso. Quantumania apresentou Kang como ameaça multiversal e o descartou no mesmo filme.
Se Vingadores: Apocalipse seguir o padrão de "muitos personagens, pouco tempo", Peggy Carter corre risco de virar mais uma foto no mural de "heróis que estiveram lá". A diferença agora: a atriz já avisou publicamente que não aceita passivamente decisões que diminuam a personagem. Isso pode forçar os roteiristas a escreverem algo com peso real — ou gerar atrito nos bastidores que vaze antes da estreia.
Vereditos: o melhor pra cada perfil
Para quem assistiu só aos filmes: O cameo em Multiverso da Loucura funciona como choque visual — Wanda é assustadora, ponto. Não há investimento emocional na Capitã Carter live-action porque o filme não dá tempo. Aceite como "demonstração de poder da vilã" e siga em frente.
Para quem viu What If...?: A versão live-action é ofensa direta. A animação provou que a personagem sustenta protagonismo. O filme usou o visual da série para vender ingressos e entregou cadáver. A frustração de Atwell espelha a do fã que acompanhou a jornada animada.
Para quem segue bastidores: Atwell quebrou a regra não-escrita de "não critique o estúdio em público". Isso sinaliza ou coragem rara, ou certeza de que seu retorno em Apocalipse já está blindado contratualmente. De qualquer forma, a Marvel agora tem uma atriz protagonista do MCU dizendo abertamente que a direção falhou com sua personagem. Isso tem peso.
Onde isso pode dar
A Marvel tem duas saídas. A primeira: usar Vingadores: Apocalipse para dar a Peggy Carter live-action o arco que a animação teve — liderança, sacrifício com significado, momento de brilho tático contra ameaça cósmica. A atriz tem carisma, histórico com o público e agora, capital político por ter falado abertamente.
A segunda: tratar o retorno como "fan service" vazio, colocar a personagem em cena de batalha genérica com dezenas de outros heróis e matar de novo — ou pior, apagar da existência num reset de linha do tempo. Se isso acontecer, a declaração de Atwell vira profecia auto-realizável: a Marvel convidou a atriz para legitimar um filme, usou sua imagem para marketing e descartou a personagem duas vezes.
O teste vem na primeira cena de Peggy em Apocalipse. Se ela tiver falas que não sejam apenas "Vingadores, unidos!", se tomar decisões que alterem o rumo da trama, se sobreviver ao terceiro ato — aí sim, a reparação existe. Caso contrário, a frase "foi desrespeitoso" vira epitáfio da versão live-action da Capitã Carter.


