TL;DR: "It Ends" transforma uma simples viagem de amigos em um labirinto sem saída que coloca em xeque a própria existência. O filme indie de Alexander Ullom mistura horror, humor e filosofia para criar um teste de resistência mental que deixa o público dividido.
O que aconteceu
O longa‑metraje de estreia de Alexander Ullom apresenta quatro jovens de 20 e poucos anos — Tyler, recém‑retornado do serviço militar, e os recém‑formados Day, Fisher e James — que decidem atravessar a Flórida em busca de um último momento antes da vida adulta. O que começa como uma conversa descontraída, cheia de memes e piadas internas, rapidamente se transforma em um pesadelo quando a estrada parece não ter fim. Os personagens percebem que, não importa o quanto tentem virar ou parar, o asfalto se estende infinitamente, como se o mundo inteiro fosse um corredor sem saída.
Sem necessidade de combustível, sem fome, sem sono, eles continuam avançando enquanto o cenário ao redor se repete: carros com odômetros estourados, florestas que se enchem de figuras gritando e tentando entrar no veículo. A tensão aumenta quando a busca por respostas se torna obsessiva: será um teste divino, um purgatório, ou simplesmente um acidente cósmico? Cada tentativa de racionalizar a situação falha, e a ansiedade coletiva começa a corroer a sanidade do grupo.
Como chegamos aqui
Ullom aproveitou o pacote de equipamentos gratuitos da Florida State Alumni, o que explica a estética crua e o clima de baixa produção que, longe de ser um defeito, reforça a sensação de realidade angustiante. A escolha de colocar personagens que ainda estão na transição entre adolescência e vida adulta não é aleatória; ela permite que o filme explore o medo universal de um futuro incerto, algo que ressoa fortemente com a Geração Z.
Embora alguns críticos tenham comparado o filme a Backrooms, de Kane Parsons, a verdadeira inspiração parece estar mais próxima da obra de Samuel Beckett, Waiting for Godot. Assim como os protagonistas de Beckett esperam por um sentido que nunca chega, os quatro amigos de "It Ends" circulam em um loop sem destino, forçados a encontrar significado nas próprias memórias e nas conversas que mantêm viva a chama da humanidade.
- Temas centrais: Existencialismo, a busca por sentido, a monotonia da vida adulta, nostalgia versus inovação.
- Estrutura narrativa: Mistura de horror de sobrevivência com drama psicológico, intercalando cenas de ação com longos diálogos introspectivos.
- Referências culturais: Memes da internet, jogos mobile como subway surfers, e a crítica à indústria do entretenimento que recicla nostalgia.
Um dos momentos mais marcantes é quando Day, em um ataque de frustração, lamenta não ter baixado Subway Surfers antes da viagem, pois ao menos isso teria oferecido uma distração. Essa linha, embora cômica, sublinha a necessidade humana de estímulo constante para evitar o vazio existencial.
"Este filme me fez querer me matar e depois não me matar, eu amei." – comentário de um crítico após a pré‑estreia.
A crítica que considerou a obra "entediante" e "sem nada importante a dizer" revela a polarização que o filme gera: enquanto alguns veem nele um teste de paciência, outros enxergam uma reflexão profunda sobre a condição humana. A execução simples — um carro, uma estrada infinita e diálogos carregados — demonstra que a força de um filme indie pode residir precisamente na sua falta de artifícios.
O que vem depois
Com lançamento marcado para 21 de agosto de 2026, "It Ends" chega ao público em um momento em que o mercado cinematográfico está saturado de remakes, reboots e sequências baseadas em nostalgia. A proposta de Ullom, ao contrário, oferece algo ainda não visto: uma história que não promete respostas, mas que obriga o espectador a confrontar a própria incapacidade de encontrar um fim definitivo.
Se a crítica ao excesso de nostalgia for bem recebida, o filme pode abrir espaço para uma nova onda de produções que privilegiam a experimentação filosófica sobre o retorno a fórmulas seguras. Por outro lado, a falta de um desfecho tradicional pode afastar o público acostumado a narrativas lineares, limitando seu sucesso comercial.
Para a Geração Z, que já sente o peso de um futuro incerto marcado por crises climáticas, econômicas e sociais, "It Ends" pode se tornar um ponto de referência cultural, um espelho de suas próprias ansiedades. Para os cineastas independentes, o filme demonstra que, mesmo com recursos limitados, é possível criar uma obra que dialogue com grandes temas existenciais.
Onde isso pode dar
O debate que "It Ends" desperta vai além da simples avaliação de um filme de horror. Ele questiona a própria função do entretenimento: será que estamos satisfeitos em reviver o passado em vez de criar algo novo? A mensagem implícita — que a nostalgia não sustenta a sobrevivência emocional — pode inspirar produtores a investir em narrativas originais que abordem questões contemporâneas.
Além disso, a abordagem de Ullom pode incentivar outros diretores emergentes a usar recursos acadêmicos ou comunitários para contar histórias ambiciosas, provando que a criatividade não depende necessariamente de grandes orçamentos. Se o público abraçar a proposta, poderemos testemunhar uma mudança gradual na forma como o cinema indie se posiciona frente ao mainstream, valorizando a experimentação intelectual tanto quanto o espetáculo visual.
Em última análise, "It Ends" não oferece um mapa para a vida; ele apenas nos coloca no banco do motorista de um carro que nunca para. A escolha de continuar dirigindo — ou de abandonar o veículo — fica a critério de cada espectador, e talvez seja essa a lição mais importante que o filme deixa: o fim pode nunca chegar, mas a jornada continua.


