Kevin O’Leary anunciou, em maio de 2026, que seu projeto de data center "Wonder Valley" seria atacado por agentes chineses, enquanto a comunidade de Box Elder, Utah, protestava contra a construção do que ele prometia ser o maior centro de computação do mundo.
Quem é Kevin O’Leary e qual é seu projeto Wonder Valley?
Kevin O’Leary — investidor famoso por participar do reality show Shark Tank — tem a alcunha de "Mr. Wonderful". Em 2022, ele entrou no ramo de data centers ao apoiar a mineradora de Bitcoin Bitzero, que depois se reposicionou como fornecedora de computação para IA. Em 2024, O’Leary anunciou o projeto "Wonder Valley" no Canadá, e, em 2025, estendeu a ideia para Utah, prometendo um campus de 40 mil acres com uma usina a gás de 9 GW, capaz de gerar o dobro do consumo médio de energia do estado.
O que é o projeto de data center em Box Elder County, Utah?
Chamado oficialmente de "Projeto Stratos" e descrito em comunicados como "o maior data center do mundo", o empreendimento seria construído na região conhecida como Golden Spike District, ao norte do Great Salt Lake. A proposta inclui:
- Um terreno de 40 mil acres (cerca de 162 km²);
- Uma usina a gás que produziria 9 GW de eletricidade;
- Infraestrutura de rede de alta velocidade para atender demandas de IA;
- Benefícios fiscais e isenções de impostos para a empresa.
Por que Kevin O’Leary acusou a China de estar contra o projeto?
Em entrevista ao programa de Maria Bartiromo na Fox Business, O’Leary afirmou que, após a aprovação unânime dos três comissários do condado, ele percebeu um aumento de críticas online. Ele concluiu que "apenas a China" teria interesse em impedir a construção, alegando que a China não quer que os EUA ampliem sua capacidade de energia e computação. O investidor chegou a apresentar listas de supostos críticos e a acusar o "CPP" (Partido Comunista Chinês) de estar por trás das oposições, embora não tenha apresentado evidências concretas.
Como a comunidade local reagiu ao anúncio do data center?
Os residentes de Box Elder ficaram surpresos ao descobrir o projeto apenas algumas semanas antes da votação dos comissários. As reações incluíram:
- Protestos nas reuniões do condado, com mais de mil pessoas presentes;
- Formação da coalizão "Box Elder Accountability Referendum" (BEAR), que reuniu milhares de voluntários para coletar assinaturas contra o projeto;
- Acusações de falta de transparência, com moradores descrevendo a situação como "trair a confiança";
- Preocupações sobre o consumo de água em uma região já afetada por secas e a diminuição do Great Salt Lake.
Qual foi o papel da MIDA e dos políticos estaduais no processo?
A Military Installation Development Authority (MIDA) foi criada para facilitar projetos ligados a instalações militares. Ela assumiu a responsabilidade de aprovar o "Project Area" do data center, o que essencialmente transformou a agência em um órgão municipal para o terreno. Políticos como o governador Spencer J. Cox, o presidente do Senado J. Stuart Adams e o presidente da Câmara Mike Schultz apoiaram publicamente o projeto, citando segurança nacional e benefícios econômicos. Contudo, após a onda de protestos, Cox reconheceu que o processo não havia atendido às expectativas da população e Adams acabou perdendo a reeleição, em parte devido à controvérsia.
Quais são as preocupações ambientais e de recursos hídricos?
O principal ponto de discórdia foi o uso de água. A proposta original prometia um sistema de refrigeração em circuito fechado, mas a licença de água concedida era para a usina a gás, não para o data center em si. Estudos apontam que data centers de grande porte podem consumir entre 400 e 500 milhões de galões de água por ano, equivalente a dezenas de campos de golfe. Além disso, a construção de uma usina a gás de 9 GW aumentaria a emissão de gases de efeito estufa e poderia elevar a temperatura noturna da região em até 12 °C, segundo análises de especialistas da Utah State University.
Qual é o status atual da disputa e os próximos passos?
Em setembro de 2026, O’Leary e a Fox News foram processados por difamação pelos grupos que ele acusou de serem financiados pela China. O caso ainda está em andamento. Enquanto isso, a MIDA assinou o acordo interlocal, mas deixou seu próprio campo de assinatura em branco, adiando a execução do projeto. Nenhum inquilino foi anunciado, nenhuma licença de construção foi finalizada e a terra ainda não foi vendida. O futuro do "Projeto Stratos" depende de:
- Decisões judiciais sobre o processo de referência da BEAR;
- Possíveis regulamentações estaduais que restrinjam a velocidade de aprovação de data centers;
- Negociações entre desenvolvedores e autoridades locais sobre benefícios fiscais e mitigação ambiental.
O que falta saber
Embora o projeto tenha gerado enorme repercussão, ainda há lacunas importantes:
- Não há confirmação pública de nenhum cliente corporativo (hiperscaler) que tenha assinado contrato de locação;
- Os detalhes técnicos da suposta tecnologia de turbina a gás "zero água" ainda não foram divulgados;
- O impacto real sobre a economia local — número de empregos permanentes versus temporários — permanece incerto.


