Quatro personagens ganharam espaço no MCU depois de Avengers: Endgame (2019), mas só um — yelena belova — realmente recebeu desenvolvimento à altura. shang-chi, Ms. Marvel e kate bishop seguem esperando há anos por sequências, séries ou arcs próprios que justifiquem suas introduções. E enquanto Avengers: Doomsday se aproxima como o próximo grande evento da Marvel, a conta não fecha: a fase pós-Endgame apresentou rostos novos que, na prática, foram largados no meio do caminho.
O que aconteceu
O período seguinte ao sacrifício do Homem de Ferro foi, para o Universo Cinematográfico Marvel, uma tentativa de renovação forçada. A saída de Tony Stark e Steve Rogers abriu um vácuo de protagonistas, e a resposta da estúdio foi apostar em figuras mais jovens e diversas. Shang-Chi (Simu Liu) estreou em 2021 com um filme solo de artes marciais que fugia do padrão genérico de super-heróis. Ms. Marvel (Iman Vellani) ganhou série própria no Disney+ em 2022 trazendo uma protagonista muçulmana adolescente — Kamala Khan, fã da Capitã Marvel que descobre seus próprios poderes. Kate Bishop (Hailee Steinfeld) apareceu em hawkeye (2021) como uma arqueira mirim e obstinada que herdaria o manto do herói. E Yelena Belova (Florence Pugh) foi apresentada em black widow (2021) como a irmã adotiva de Natasha Romanoff, uma espiã treinada desde a infância com humor ácido e trauma de sobra.
Os quatro tinham potencial claro. O problema é o que a Marvel fez — ou deixou de fazer — com cada um deles depois.
Como chegamos aqui
O caso mais gritante é o de Shang-Chi. O filme de 2021 foi bem recebido por crítica e público, trouxe cenas de luta coreografadas no nível de Matrix e apresentou os dez anéis — artefato que a própria Marvel já confirmou como central no futuro do MCU. A sequência, Shang-Chi 2, está em desenvolvimento, mas quase cinco anos depois do original, o segundo filme não tem data, nem roteiro finalizado, nem anúncio concreto de janela. Para um personagem que carregou um longa inteiro nas costas, o silêncio é injustificável.
Ms. Marvel e Kate Bishop seguem roteiro parecido, com nuances. Kamala Khan apareceu em The Marvels (2023), ao lado de Capitã Marvel (Brie Larson) e Monica Rambeau (Teyonah Parris). O filme, porém, foi um fracasso comercial e recebeu críticas pesadas — o que congelou qualquer plano de continuidade para a personagem. Kate Bishop teve cameo no mesmo longa e, desde então, sumiu do radar. A expectativa era que ambas formassem um time de heroínas jovens nos moldes dos Young Avengers dos quadrinhos, mas a Marvel não confirmou nada.
Já Yelena Belova seguiu caminho oposto. Florence Pugh entregou uma performance carismática em Black Widow, reapareceu em Hawkeye e depois liderou Thunderbolts* (2025) como protagonista. A Marvel claramente entendeu que Yelena funciona e está investindo nela como peça fixa do MCU daqui pra frente.
O contraste é didático: mesmo com um filme solo aclamado, Shang-Chi está parado. Mesmo com série própria, Ms. Marvel está parada. Mesmo com série e filme, Kate Bishop está parada. Yelena, que tecnicamente começou como coadjuvante, é a única que avançou.
Existem razões práticas para esse desequilíbrio. A pandemia de COVID-19 atrasou lançamentos e redefiniu prioridades de estúdio. A própria Disney passou por mudanças internas de liderança que afetaram o planejamento de longo prazo do MCU. E The Marvels ter fracassado criou um efeito dominó: qualquer projeto envolvendo Ms. Marvel ou Kate Bishop ficou automaticamente em espera. Mas nada disso muda o fã brasileiro que acompanhou Shang-Chi no cinema em 2021 e ainda não sabe quando verá o herói de novo.
O que vem depois
O próximo grande marco do MCU é Avengers: Doomsday, previsto para reunir heróis antigos e novos. Shang-Chi está confirmado no elenco. Yelena Belova deve aparecer. Ms. Marvel e Kate Bishop seguem sem posição oficial — o que, considerando o histórico, não surpreende.
A questão é estrutural. O MCU pós-Endgame tentou construir novos protagonistas, mas não deu a eles continuidade. Apresentou personagens, gerou expectativa e depois os colocou em espera indefinida. Yelena Belova é a exceção justamente porque a Marvel tratou ela como prioridade desde o início — e Florence Pugh entregou o desempenho que justificou essa aposta.
Para o fã brasileiro, a lição é clara: o MCU continua sendo uma aposta de longo prazo, mas nem todo personagem introduzido vai ter o espaço que merece. Shang-Chi merecia uma sequência em 2023. Ms. Marvel merecia uma segunda temporada ou um arco próprio. Kate Bishop merecia mais do que um cameo. O que a Marvel entregou foi Yelena — e, por enquanto, só.
Enquanto Doomsday não chega, resta torcer que a Marvel olhe para os próprios arquivos e entenda que potencial sem continuidade é só desperdício de hype.


