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Raze and Rebuild Studio: veteranos de AAA criam cooperativa sem investimento externo — e agora?

· · 5 min de leitura
Desenvolvedores alongam-se em mesa standing desk, com garrafas d'água, bolas de pilates e monitores exibindo código
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Quatro veteranos da indústria de jogos — a ex-roteirista da Monolith Productions Tanya DePass, a consultora de negócios e acessibilidade Tarja Porkka-Kontturi, a especialista em acessibilidade Laura Kate Dale e o co-fundador do Global Game Jam Ian Schreiber — anunciaram a criação da Raze and Rebuild Studio, uma cooperativa de trabalhadores que nasce sem capital externo e com a proposta de tornar a acessibilidade parte estrutural do estúdio, não apenas dos jogos que produz.

O que aconteceu: estúdio cooperativo nasce sem investidor e com acessibilidade no DNA

A Raze and Rebuild Studio se define como "surgindo das cinzas da indústria de jogos" — referência direta à onda de demissões em massa e fechamentos de estúdios que deixou milhares de desenvolvedores desempregados nos últimos anos. O modelo cooperativo significa que cada membro é dono igualitário do negócio, com poder de decisão compartilhado e divisão de lucros entre quem de fato faz os jogos.

Laura Kate Dale, em entrevista ao Game Developer, confirmou que o estúdio não tem financiamento inicial de publishers, fundos de venture capital ou editores. A estratégia é buscar grants (editais de fomento), parcerias pontuais e manter o escopo do primeiro projeto contido. "Vai demorar um pouco até revelarmos nosso primeiro jogo, mas podemos dizer que nos interessamos por jogos de impacto que tocam experiências vividas reais", disse Dale. O portfólio inicial inclui ideias satíricas sobre a precarização do emprego na indústria e conceitos mais leves focados em mecânicas.

Contexto: por que importa

O modelo de cooperativa de trabalhadores não é novo no desenvolvimento independente — estúdios como KO_OP, no Canadá, já o defendiam antes da pandemia. Veteranos como Chet Faliszek e Kimberly Voll chegaram a fundar a Stray Bombay sob essa estrutura. Mas a Glory Society, outra cooperativa notável, fechou as portas por questões de saúde de seus fundadores, o que expôs a fragilidade de microestúdios sem rede de segurança.

O diferencial da Raze and Rebuild está na interseção declarada entre cooperativismo e acessibilidade. Dale explicou: "Uma das partes mais importantes de adotar o modelo cooperativo é como ele intersecta com acessibilidade, não só no que fazemos mas em como trabalhamos. Estruturar isso para que a natureza imprevisível da deficiência seja abordada desde o início — as formas como a capacidade de trabalho pode oscilar — é algo que podemos tornar fundacional numa cooperativa, e que raramente é suportado em estúdios tradicionais."

Para o público brasileiro, onde a indústria local oscila entre estúdios de trabalho para fora (work-for-hire) e poucos IPs próprios sustentáveis, o caso funciona como estudo de caso: é possível montar estrutura própria sem abrir mão de autonomia criativa nem de condições dignas — mas o capital de giro segue sendo o gargalo.

Reação do mercado e da comunidade

A recepção entre desenvolvedores independentes e observadores da indústria tem sido de otimismo cauteloso. O anúncio repercutiu em fóruns como o r/gamedev do Reddit e no Bluesky, com destaque para dois pontos: a composição do time — que une experiência de AAA (Monolith, conhecida por middle-earth: shadow of mordor e a série F.E.A.R.) com autoridade técnica em acessibilidade (Dale é autora de accessibility in games e consultora reconhecida) — e a ausência de capital de risco, vista como proteção contra pressões de retorno financeiro de curto prazo.

Críticos do modelo cooperativo apontam que a tomada de decisão coletiva pode tornar o estúdio mais lento em pivôs comerciais e que a captação de recursos via grants é incerta e burocrática, especialmente fora de ecossistemas com fomento forte (Canadá, Reino Unido, alguns estados dos EUA). No Brasil, onde editais como os da Ancine ou FSA têm ciclos longos e concorrência alta, o caminho seria ainda mais íngreme.

O que falta saber: primeiro jogo, sustentabilidade e expansão

As principais incógnitas permanecem abertas. Não há previsão de anúncio do primeiro título, nem clareza sobre qual plataforma ou gênero será priorizado. Dale mencionou protótipos em avaliação, com foco em manter escopo pequeno — sinal de que o estúdio entende o risco de scope creep em equipe enxuta.

  • Qual será a estratégia de publishing: auto-publicação, parceria com editora indie ou fundo de fomento?
  • Como a cooperativa lidará com contratações futuras — novos membros terão vesting imediato ou período de experiência?
  • Haverá abertura para colaboradores remotos no Sul Global, incluindo Brasil, dada a defesa de acessibilidade estrutural?

Enquanto isso, a Raze and Rebuild se junta a uma leva de novos estúdios fundados por veteranos pós-demissoes — como a Pretty Cool Games, de ex-desenvolvedores de human: fall flat — sugerindo que a reestruturação da indústria pode vir mais pela base do que pelo topo.

Para ficar no radar

A Raze and Rebuild Studio representa um teste de resistência para o modelo cooperativo em 2026: conseguirá um time sênior, sem capital externo e com compromisso público de acessibilidade radical, lançar um jogo comercialmente viável sem sacrificar a saúde da equipe? A resposta não virá em comunicado de imprensa, mas no dia a dia de prototipagem, nas decisões de escopo e na capacidade de transformar grants em runway sustentável. Para desenvolvedores brasileiros observando de fora, o caso vale como referência — não de receita pronta, mas de perguntas certas: quem lucra com o jogo? Quem decide o ritmo? E se a acessibilidade não for um checklist de lançamento, mas a arquitetura do estúdio?

Perguntas frequentes

O que é uma cooperativa de desenvolvimento de jogos?
É um estúdio onde os trabalhadores são donos coletivos do negócio. Decisões estratégicas, divisão de lucros e condições de trabalho são definidas democraticamente pelos membros, sem acionistas externos ou hierarquia tradicional de publisher/estúdio.
Quem são os fundadores da Raze and Rebuild Studio?
Tanya DePass (ex-roteirista da Monolith Productions), Tarja Porkka-Kontturi (consultora de negócios e acessibilidade), Laura Kate Dale (especialista em acessibilidade e autora) e Ian Schreiber (co-fundador do Global Game Jam e educador).
A Raze and Rebuild já tem jogo anunciado?
Não. O estúdio está em fase de prototipagem e avaliação de escopo. Laura Kate Dale disse que "vai demorar um pouco até revelarmos nosso primeiro jogo", mas adiantou interesse em jogos de impacto e ideias satíricas sobre a indústria.
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