Seung-nam Ha, reconhecido como o primeiro coreano a integrar a Japan Cartoonists Association como membro pleno, faleceu no dia 2 de novembro, aos 68 anos. Sua carreira, que começou nos anos 80, influenciou gerações de leitores de manhwa e abriu portas para artistas coreanos no mercado japonês.
O que aconteceu
A Korea Cartoonist Association divulgou que o artista de artes marciais, Seung-nam Ha, morreu em 2 de novembro. Nascido em Busan em 1958, Ha iniciou sua jornada como aprendiz de Nam-gil Heo, um veterano da cena de quadrinhos coreana. Seu primeiro trabalho oficial chegou ao público em 1980, com a série The King of Baseball Without a Nationality, que já mostrava seu talento para combinar humor e ação.
O ponto alto de sua obra veio em 2001, quando lançou Goltong's Declaration of Departure no jornal Sports Today. A história acompanha Yoo Se-ok, um jovem que, a mando de seu mestre, adentra o mundo das artes marciais e se vê envolvido em inúmeras confusões. O sucesso da série gerou uma produtora própria – Ha Seung-nam Production – que continuou a publicar capítulos adicionais da saga Goltong, além de títulos como Divine Sword e Evil Sword.
Além do mercado nacional, Ha buscou oportunidades no exterior. Em 1994, teve quadrinhos publicados na revista taiwanesa Infinite Boys. Mais tarde, enviou obras para o Japão, onde publicou Sayaka (2004) e Existence (2005) em revistas de mangá. Também atuou como ilustrador da adaptação manga de Records of the Three Kingdoms. Em 2007, alcançou o marco histórico de ser o primeiro artista coreano a ingressar como membro pleno na Japan Cartoonists Association, consolidando sua posição como ponte entre as indústrias de quadrinhos da Coreia e do Japão.
Como chegamos aqui
Para entender a importância de Ha para o público brasileiro, é preciso traçar a evolução do manhwa no ocidente. Até o final dos anos 1990, a maioria dos fãs de quadrinhos asiáticos no Brasil consumia principalmente mangá japonês. O acesso a obras coreanas era limitado a publicações importadas e a pequenos grupos de colecionadores.
O surgimento de eventos como a anime Friends e a CCXP, aliados à expansão de lojas especializadas, começou a abrir espaço para o manhwa. Quando Ha publicou Goltong's Declaration of Departure em formato digital, plataformas de leitura como webtoon e lezhin ganharam tração no Brasil, permitindo que leitores descubram histórias coreanas sem depender de importação física.
Além da disponibilidade, o estilo narrativo de Ha – ação coreografada, personagens com códigos de honra marcados e humor sutil – encontrou eco entre os fãs brasileiros que já apreciavam séries como Hunter x Hunter e One Piece. A presença de Ha em revistas japonesas também ajudou a legitimar o manhwa como um gênero à parte, afastando-o da mera “variação do mangá”.
- Início da carreira (1980): debut com The King of Baseball Without a Nationality;
- Goltong's Declaration of Departure (2001): série que definiu seu estilo de artes marciais;
- Expansão internacional (1994‑2005): publicações em Taiwan e Japão, incluindo Sayaka e Existence;
- Marco histórico (2007): primeiro coreano membro pleno da Japan Cartoonists Association;
- Legado institucional: membro do conselho da Korea Cartoonist Association até o falecimento.
Esses marcos explicam por que a morte de Ha gerou repercussão não só na Coreia, mas também entre comunidades de fãs que o consideravam um pioneiro.
O que vem depois
Com a partida de Seung-nam Ha, duas questões surgem para o cenário brasileiro: quem continuará a levar adiante o estilo de artes marciais que ele popularizou, e como o mercado de manhwa se adaptará à ausência de um dos seus maiores divulgadores?
Primeiro, a Ha Seung-nam Production ainda possui direitos sobre as obras da série Goltong. É provável que a produtora busque novos autores para dar sequência à saga, mantendo a identidade visual criada por Ha. Isso pode abrir oportunidades para artistas emergentes da Coreia e, possivelmente, para talentos brasileiros que já trabalham com ilustração digital.
Segundo, editoras brasileiras que licenciam manhwa – como a JBC e a Panini – podem intensificar a busca por obras que preencham o vazio deixado por Ha. A tendência é que títulos com temáticas de artes marciais e ambientação histórica ganhem mais atenção, já que o público demonstrou afinidade com esse nicho.
Por fim, a comunidade de fãs deverá lembrar Ha não apenas pelos quadrinhos, mas também pelo papel de diplomata cultural que desempenhou ao conectar duas indústrias tradicionalmente competitivas. Fóruns, grupos no Discord e páginas de fãs já começaram a organizar homenagens virtuais, compartilhando trechos de suas obras e relatos de como ele influenciou suas carreiras artísticas.
O que falta saber
Até o momento, a família de Seung-nam Ha não divulgou detalhes sobre o funeral ou possíveis homenagens oficiais na Coreia. A Korea Cartoonist Association prometeu publicar um comunicado oficial nos próximos dias, o que pode incluir informações sobre prêmios póstumos ou eventos comemorativos.
Para os leitores brasileiros, a principal ação é apoiar os lançamentos futuros da Ha Seung-nam Production e acompanhar as iniciativas de preservação de seu legado nas plataformas digitais. Manter viva a obra de Ha garante que a ponte entre o manhwa coreano e o público ocidental continue firme, inspirando novas gerações de artistas e leitores.


