O Universo espelho de Star Trek completa quase seis décadas desde o episódio "Mirror, Mirror" de 1967, e a franquia não para de revisitar essa realidade distorcida onde a Federação virou o Império Terrano e a maldade virou política de Estado. Ao longo de cinco séries — da Série Clássica a Discovery — atores ganharam a chance de incendiar seus próprios personagens, e o resultado é uma galeria de horrores que vai do sádico burocrático ao genocida industrial. Abaixo, o ranqueamento do menos perturbador ao absolutamente inesquecível.
10. Sulu do Espelho: o burocrata da tortura
Na linha do tempo principal, Hikaru Sulu é o oficial mais afável da ponte, com vícios inofensivos como esgrima e botânica. No Império Terrano, ele comanda a segurança da ISS Enterprise, administra as cabines de agonia e assedia Uhura abertamente. George Takei interpreta o papel com um prazer visível, evocando o Major Toht de "Caçadores da Arca Perdida" — comparação que, uma vez feita, não se apaga mais. Sulu é, na prática, o verdadeiro antagonista do episódio original, tramando a eliminação simultânea de Kirk e Spock. Ele só sobrevive porque a televisão de 1967 não matava elenco fixo em episódios de doppelgänger.
9. Spock do Espelho: o vilão que ouve razão
A barba se tornou ícone pop independente de Star Trek, parodiada em "Futurama", "South Park" e "Doctor Who", mas o personagem é uma contradição fascinante: o menos mau de todo aquele universo. Leonard Nimoy entrega um Spock leal, lógico e que, quando confrontado com argumentos morais diretos, faz o que ninguém mais faria: escuta, pondera e conclui que o Império não sobrevive. Ronald D. Moore admitiu que a equipe de Deep Space Nine quis trazê-lo de volta, mas nunca funcionou. Os romances tie-in eventualmente coroaram Spock como Imperador reformista, realizando a esperança de Kirk.
8. Phlox do Espelho: o horror na dissonância
O médico denobulano da linha principal é caloroso, curioso e deliciosamente excêntrico. Sua versão espelho mantém exatamente o mesmo jeito afável, a mesma postura de cabeceira — e realiza vivissecções por diversão, auxilia torturas como quem lava a louça. John Billingsley não pisca para a câmera; o terror está todo no descompasso. "In a Mirror, Darkly" permanece a única história de Star Trek contada inteiramente no Universo Espelho, sem nenhum personagem prime aparecendo, o que libertou a produção para grotescos sem criar furos no cânone principal — incluindo a estreia live-action de um Gorn.
7. Capitã Killy: a piada mais cruel de Discovery
Sylvia Tilly é o coração ansioso e tagarela de Discovery. Sua contraparte comanda a ISS Discovery com o apelido de "Capitã Killy", conquistado a corpos que pisou na ascensão. Mary Wiseman se diverte visivelmente, e a fala que os fãs ainda citam resume o sadismo: "Se você me saudasse assim, Connor, eu arrancaria sua língua e a usaria para lamber minhas botas". Wilson Cruz deu nota cinco de cinco no aftershow; Mary Chieffo quis nota acima da escala. É o conceito central do Universo Espelho destilado: as pessoas mais doces viram os monstros mais assustadores.
6. Sisko do Espelho: o mercenário que vira líder rebelde
Benjamin Sisko prime é um líder moral; seu espelho começa como pirata folgazão a serviço da Aliança Klingon-Cardassiana, vivendo bem enquanto a humanidade é escravizada. Avery Brooks injeta um charme que azeda conforme a trama exige. O ponto alto não é ele, mas o que a trama permite: em "Shattered Mirror", a versão espelho de sua falecida esposa Jennifer atrai o filho Jake para Terok Nor, usando o luto de um adolescente como isca tática. James L. Conway dirigiu este e "In a Mirror, Darkly" de Enterprise, raro elo entre duas séries no Universo Espelho.
5. Archer do Espelho: a ambição que alucina
Jonathan Archer prime é o pioneiro ingênuo; o espelho é um xenófobo paranoico que toma a ISS Enterprise à força, captura a USS Defiant deslocada no tempo e planeja se coroar Imperador enquanto alucina um futuro que nunca terá. Scott Bakula entrega seu melhor trabalho em quatro temporadas. A trama nasceu de um acidente: a participação planejada de William Shatner caiu fora, e a história da Defiant preencheu o buraco. A produção reconstruiu a ponte da Constituição-classe original pixel a pixel; Doug Drexler estudou milhares de frames para acertar os gráficos retroiluminados. Na longa cena de quarto entre Archer e Sato, Bakula errava falas de propósito para forçar retakes, divertindo a equipe.
4. Lorca do Espelho: a mentira de uma temporada inteira
O maior long con de Star Trek. Durante quase toda a primeira temporada de Discovery, Gabriel Lorca parece um capitão da Frota Estelar moralmente cinza, endurecido pela guerra. A revelação: ele era o Lorca do Espelho o tempo todo, um fugitivo terrano que trocou de lugar com seu prime e manipulou Burnham, Stamets e a rede de esporos para voltar para casa e retomar o trono. As pistas estavam em todo lugar — a fotossensibilidade, traço terrano conhecido, a fixação inexplicável por Burnham. Jason Isaacs soube desde o primeiro dia de filmagem: "Todo ator quer um segredo para jogar, e eu tinha o maior de todos". Escalar Lucius Malfoy não foi acidente.
3. Intendente Kira: a rainha teatral de Deep Space Nine
Kira prime é uma ex-guerrilheira principista; a Intendente é uma déspota narcisista e teatral que governa Terok Nor com crueldade performática. O New Trek Programme Guide a chamou de mistura de Cleópatra e Mae West, o que subestima o quanto Nana Visitor se diverte. Única a aparecer nos cinco episódios de DS9 no Universo Espelho e a encontrar sua contraparte prime face a face. Visitor descreveu o papel como a "Disneylândia de Star Trek". Sobre o beijo entre as duas Kiras, Visitor foi taxativa: "narcisismo total, nada a ver com sexualidade", e lembrou que a TV já tinha poucas personagens queer — "não precisamos de uma má". Gag recorrente: ela manda matar um Ferengi em quase todo episódio em que aparece.
2. Imperatriz Hoshi Sato: o golpe nos 90 segundos finais
Hoshi prime é a linguista brilhante e tímida que passa a série com medo do espaço. Em "In a Mirror, Darkly", sua versão parece coadjuvante, a mulher do capitão, útil aos planos de Archer mas nunca os conduzindo. Dois episódios sendo subestimada por todos — inclusive o público. Então ela envenena Archer com ajuda do novo consorte, toma a USS Defiant e abre canal para o Comando da Frota: "Vocês estão falando com a Imperatriz Sato. Preparados para receber ordens". Corta para créditos, série acaba, ninguém descobre o que vem depois. O romance "Age of the Empress", do próprio Mike Sussman, estabeleceu que ela fundou uma dinastia que governou o Império por mais de um século. Jordon Nardino, de Discovery, confirmou que o título latino Iaponius da Imperatriz Georgiou foi adotado por Hoshi para honrar sua terra natal, ligando duas imperatrizes através de cem anos de história.
1. Imperatriz Philippa Georgiou: o terror em estado puro
Não há disputa. Georgiou não é administradora de estação nem oficial ambicioso com delírios de grandeza. Ela é a governante absoluta de todo o Império Terrano, xenófoba genocida cujo reinado se ergue na subjugação industrializada de toda espécie não-humana ao alcance, e Michelle Yeoh a interpreta com uma quietude muito mais assustadora que gritos. A cena do jantar em "Vaulting Ambition" define o patamar: Georgiou recebe Burnham para uma refeição elaborada, elogia o chef — "Ninguém prepara Kelpien como o chef imperial" — e revela no meio do prato o que estão comendo. Kelpianos, a espécie senciente de Saru, criados como gado. Ela então alimenta Burnham com os gânglios de ameaça usando hashis e observa a deglutição. Canibalismo como técnica de gestão. Yeoh saboreou: "Era como a refeição mais deliciosa. Você saboreia do salgado ao picante". Seu título completo — Philippa Georgiou Augustus Iaponius Centarius — foi modelado por Nardino em imperadores romanos após ler "SPQR" de Mary Beard. O filme "Section 31" (2025) mostrou a origem: adolescente, ela venceu um torneio contra dezoito outras crianças para definir o próximo Imperador, sobreviveu, voltou para casa e envenenou os pais e o irmão mais novo para cortar todo laço com quem era. Fãs podem dar a coroa à Intendente Kira pela longevidade ou a Lorca pelo twist melhor; ambos têm mérito. Nenhum dos dois matou a própria mãe a caminho do trabalho.
Pra cada perfil, um vencedor
- Quer o clássico que começou tudo: Spock do Espelho (barba icônica, arco moral raro).
- Prefere terror psicológico sutil: Phlox do Espelho (a dissonância entre doçura e vivissecção).
- Busca a melhor reviravolta de roteiro: Lorca do Espelho (uma temporada inteira de mentira sustentada).
- Quer a vilã mais carismática e duradoura: Intendente Kira (cinco episódios, performance teatral de Nana Visitor).
- Exige o horror absoluto, sem redenção possível: Imperatriz Georgiou (genocídio industrial + canibalismo gestacional + patricídio/matricídio/fraticídio).
Todas as séries citadas estão disponíveis no Paramount+ no Brasil.


