Kim Hye Ja, aos 83 anos, estreia Still Radiant em outubro — seu primeiro filme em nove anos e a prova de que o cinema coreano ainda sabe honrar suas lendas sem transformá-las em enfeite.
Por que Still Radiant nao e apenas mais um drama de reencontro
A distribuidora Plus M Entertainment confirmou o lançamento para outubro de 2026, nove anos depois de The Way (2017). O filme acompanha Soon Ok (Kim Hye Ja) reencontrando Jung Im (Cha Mi Kyung) após seis décadas separadas. Park Seo Kyung e Choi Ju Eun interpretam as versões aos 17 anos. O elenco ainda traz Moon Seong Hyun, Cho Sung Ha e Lee Se Young. Mas o que torna isso relevante não é o elenco — é a recusa em tratar velhice como pena ou piada.
5 motivos para apostar que Still Radiant muda o jogo
- Kim Hye Ja carrega 65 anos de carreira nas costas — e o filme sabe disso. Não é cameo, não é "participação especial". Ela é o motor narrativo. Aos 83 anos, protagoniza uma história sobre memória, não sobre doença ou solidão performática.
- A amizade feminina idosa como eixo central, não subtrama. O cinema coreano adora amizades masculinas (bromance) e romances juvenis. Duas mulheres na casa dos 80 anos sustentando um filme inteiro? Raro. Still Radiant aposta que o público quer ver isso.
- Cha Mi Kyung não é "coadjuvante de luxo" — é a outra metade da equação. Após Our Unwritten Seoul e The Ugly (ambos 2025), ela traz peso dramático equivalente. O pôster divulgado mostra as duas enquadradas no mesmo plano, mesma luz. Simbolismo intencional.
- O uso de atrizes jovens (Park Seo Kyung, Choi Ju Eun) para flashbacks evita o rejuvenescimento digital barato. A escolha por casting real respeita a textura do tempo. O rosto de Kim Hye Ja não precisa ser apagado para contar o passado dela.
- Plus M Entertainment apostando em lançamento teatral em outubro, não streaming direto. Sinal de que há confiança de bilheteria para cinema de autor com elenco sênior. Em um mercado dominado por franquias e idols, isso já é declaração política.
O que ainda pode dar errado — e ninguém comenta
Existe risco real de Still Radiant cair no "poverty porn" emocional: velhice bonitinha, trilha piano chorosa, lição de vida pronta para festival. O trailer (ainda não divulgado) vai ditar o tom. Se a direção optar por contemplação estética em vez de conflito real — Soon Ok e Jung Im tiveram 60 anos de vidas separadas, segredos, ressentimentos —, o filme vira cartão-postal. Kim Hye Ja merece mais que isso. Cha Mi Kyung também.
O lado que ninguém está vendo: o mercado de trabalho para atrizes idosas
- Na Coreia do Sul, atrizes acima de 60 anos praticamente somem de papéis principais — exceto como mães sofredoras ou avós cômicas.
- Kim Hye Ja quebrou esse ciclo com The Light in Your Eyes (2019, drama), onde interpretou uma mulher de 70 anos no corpo de 25. Still Radiant é o teste de fogo: o público paga ingresso para ver velhice complexa?
- Se der certo, abre precedente para roteiros onde mulheres idosas têm desejos, segredos, sexualidade, ambição — não apenas sabedoria ancestral.
A aposta da redação: o filme que fará festivais chorarem, mas bilheteria?
Still Radiant tem tudo para ser o queridinho de Busan e Jeonju. Crítica vai aplaudir a coragem, a atuação de Kim Hye Ja, a fotografia outonal. A dúvida é se o público geral — acostumado a Parasite, Train to Busan, Squid Game — vai lotar salas para ver duas octogenárias conversando num banco de praça. A distribuição em outubro, mês de blockbusters de fim de ano, sugere que a Plus M acredita que sim. Eu quero acreditar. Mas a história do cinema coreano recente ensina: elogio de crítico não paga aluguel de sala. O veredito sai em outubro. E a torcida, aqui, é para que a amizade de 60 anos vença o algoritmo.


