Studio Sasanqua, estúdio japonês conhecido por Visions of Mana, anunciou sua primeira incursão como publicadora indie com o título afantasia, um adventure surreal criado por um desenvolvedor brasileiro.
O que aconteceu
Em 2 de outubro de 2026, o estúdio liderado por Kenji Ozawa — diretor de Visions of Mana — divulgou que passaria a atuar também como editora de jogos independentes. O anúncio veio acompanhado da revelação de AFANTASIA, um jogo de exploração narrativa desenvolvido por noidnoidnoid, criador indie do Brasil.
Além do comunicado oficial, o Studio Sasanqua abriu uma conta oficial em inglês na rede X, onde compartilhou um tweet apresentando a parceria e o novo caminho editorial. A mensagem destacou a intenção de publicar títulos que fogem das tendências de mercado, priorizando a liberdade criativa.
AFANTASIA se propõe a levar o jogador a Tempo, uma pequena cidade onde memórias e lugares do passado se misturam. Ao interagir com o ambiente, o jogador desbloqueia fragmentos de lembranças próprias e de outros personagens, aumentando sua imaginação até conseguir viver essas memórias como se fossem suas. No clímax, o protagonista deve escolher entre permanecer em Tempo ou partir para a cidade, uma decisão que simboliza a busca por identidade.
O jogo será disponibilizado para PC via Steam, com data de lançamento ainda indefinida. A primeira demo jogável será exibida na Brasil Game Show 2026 e no showcase indie DREAMSCAPE#5 em Tóquio, ambos programados para o mesmo mês.
Como chegamos aqui
A decisão de Ozawa de abrir um braço editorial não surge do nada. O estúdio, fundado em 2015, sempre manteve um perfil de desenvolvedor boutique, focando em RPGs de estilo clássico. Contudo, após o sucesso modesto de Visions of Mana, a equipe percebeu que a indústria japonesa ainda está muito centrada em grandes publishers que impõem diretrizes rígidas.
Em entrevistas, Ozawa argumentou que “produzir um jogo” vai além de seguir tendências; trata‑se de assumir responsabilidade sobre a diversão e a mensagem que o título transmite. Essa filosofia o levou a buscar um modelo que permitisse maior autonomia criativa, tanto para o próprio estúdio quanto para parceiros externos.
A escolha de um desenvolvedor brasileiro como parceiro não foi aleatória. O Brasil tem se destacado nos últimos anos como um celeiro de talentos indie, com projetos que combinam criatividade exuberante e sensibilidade cultural. No caso de noidnoidnoid, seu portfólio já mostrava uma inclinação ao surrealismo, o que se alinha perfeitamente com a proposta de liberdade editorial de Sasanqua.
Além da parceria, a própria estrutura do mercado indie tem mudado: plataformas como Steam e consoles de última geração facilitam a distribuição global, enquanto eventos como BGS e DREAMSCAPE oferecem visibilidade imediata. Essa conjuntura criou um ambiente propício para que um estúdio tradicional experimente o publishing indie sem arriscar seu core business.
O que vem depois
O futuro imediato de Studio Sasanqua como publicadora ainda está em fase de definição, mas alguns indícios já aparecem no site oficial. Além de AFANTASIA, a página menciona dois projetos ainda não anunciados: um adventure interno da própria Sasanqua e um título de ação cujo desenvolvedor permanece em sigilo.
Esses projetos levantam duas questões cruciais:
- Publicação ou desenvolvimento? – Ainda não está claro se Sasanqua vai publicar esses novos jogos ou apenas colaborar no desenvolvimento.
- Escala da operação? – A empresa pode optar por manter um catálogo restrito e curado, ou expandir rapidamente para se tornar um player relevante no cenário indie.
Independentemente da estratégia, a presença de AFANTASIA em dois grandes eventos internacionais indica que a empresa pretende usar a visibilidade global para atrair outros desenvolvedores interessados em um parceiro editorial que ofereça liberdade criativa.
Do ponto de vista do mercado, a entrada de um estúdio japonês no publishing indie pode gerar um efeito cascata: mais desenvolvedores asiáticos podem buscar parcerias fora do tradicional modelo de “publisher‑first”, enquanto editoras ocidentais podem sentir a necessidade de oferecer condições ainda mais flexíveis.
Onde isso pode dar
Minha leitura pessoal é que a jogada de Studio Sasanqua pode ser um divisor de águas para a indústria indie japonesa. Ao aliar a reputação de um estúdio estabelecido a um desenvolvedor brasileiro, o projeto demonstra que a criatividade transcende fronteiras e que a colaboração internacional pode gerar experiências únicas.
Entretanto, há riscos. Se AFANTASIA não alcançar o público esperado, a credibilidade da nova divisão editorial pode ser abalada, dificultando futuras parcerias. Além disso, a gestão de um catálogo diversificado exige recursos que o estúdio ainda não tem experiência comprovada.
Em contrapartida, um sucesso crítico pode posicionar Sasanqua como um hub de curadoria indie, atraindo talentos que buscam um ambiente livre de pressões comerciais excessivas. Isso poderia inspirar outros estúdios japoneses a seguir o mesmo caminho, potencialmente revitalizando a cena indie local.
Para os jogadores, a principal consequência será a chegada de títulos com narrativas mais ousadas e visuais experimentais, como o próprio AFANTASIA promete. Se a estratégia se confirmar, poderemos assistir a um renascimento de aventuras surreais que misturam memória, identidade e exploração, algo que tem faltado nos lançamentos mainstream recentes.
Em resumo, a aposta de Studio Sasanqua é ambiciosa e arriscada, mas tem tudo para mudar a dinâmica entre desenvolvedores e publicadoras no cenário indie global.


