The Boys 5 colocou o império de Yellowstone na mira do deboche
Eric Kripke — o showrunner de The Boys — resolveu que Taylor Sheridan era o próximo alvo na lista de cancelamento satírico da Vought. No sétimo episódio da 5ª temporada, a série da Amazon Prime Video não apenas cutucou a ferida, mas jogou sal grosso ao parodiar o estilo de produção do criador de Yellowstone (série de drama neo-Western de enorme sucesso). Se você achava que o Capitão Pátria era o único com complexo de Deus, precisa ver como a série retratou o processo criativo por trás dos novos blockbusters da Vought.
A cena rola dentro dos Vought Studios, onde a empresa está usando uma ferramenta de Inteligência Artificial para escrever um neo-Western propagandista. O detalhe que faz qualquer fã de bastidores de Hollywood rir é que a IA se recusa terminantemente a aceitar notas ou sugestões dos executivos. Isso é uma referência direta à fama de Sheridan de ser um "lobo solitário" que escreve temporadas inteiras sozinho e ignora solenemente os pitacos dos estúdios. Para The Boys, esse comportamento não é genialidade, é apenas um algoritmo teimoso.
A treta real entre Eric Kripke e o estilo Taylor Sheridan
Não é de hoje que o clima é de "shade" entre os dois produtores. Eric Kripke já foi a público criticar a mentalidade de Sheridan de dispensar a famosa writers' room (sala de roteiristas). Enquanto Sheridan se orgulha de ter escrito quase todos os episódios do universo Yellowstone sozinho, Kripke vê isso como uma oportunidade perdida de colaboração e sanidade mental.
Em uma entrevista clássica para o site Deadline — portal referência em notícias de entretenimento —, Kripke foi categórico ao dizer que não entende quem quer trabalhar sozinho. Para ele, a sala de roteiristas é a melhor parte do trabalho, comparando-a a uma festa de coquetel com as pessoas mais inteligentes que você já conheceu que nunca acaba. O deboche na 5ª temporada de The Boys é a materialização dessa crítica: se você escreve tudo sozinho e não aceita críticas, você é basicamente um robô programado.
Além da teimosia criativa, a série descreveu o show fictício da Vought como um "amontoado de adesivos de para-choque de estados conservadores colados uns nos outros". É um golpe baixo na franquia Yellowstone, que frequentemente é rotulada como "TV para estados republicanos", embora Sheridan tente se distanciar desse rótulo afirmando que suas séries criticam grandes corporações e mostram o maltrato aos povos nativos americanos.
Comparativo: O modelo Kripke vs. O modelo Sheridan
Para entender por que essa piada funcionou tanto, precisamos olhar para as duas filosofias de trabalho que dominam o streaming hoje. De um lado, temos o caos colaborativo de The Boys; do outro, o império centralizado de Yellowstone.
| Característica | Método Eric Kripke (The Boys) | Método Taylor Sheridan (Yellowstone) |
|---|---|---|
| Processo de Escrita | Sala de roteiristas diversa e colaborativa. | Escrita solo (ou com mínima ajuda). |
| Recepção a Notas | Processo aberto a revisões do estúdio. | Famoso por ignorar sugestões externas. |
| Vibe da Obra | Sátira ácida, gore e crítica social progressista. | Neo-Western, drama familiar e valores tradicionais. |
| Volume de Produção | Focado em uma série principal e poucos derivados. | Múltiplas séries simultâneas (1883, 1923, Landman). |
Essa diferença de abordagem é o que gera o atrito. Kripke acredita que a TV é um esporte de equipe, enquanto Sheridan opera como um autor de cinema que por acaso tem um contrato de bilhões com a Paramount. No episódio 7, The Boys sugere que o modelo de Sheridan é o sonho de qualquer corporação malvada: uma máquina que entrega conteúdo em massa sem questionar a ideologia por trás.
O que está por trás da piada sobre IA?
A escolha de usar uma IA para representar Sheridan não foi aleatória. Recentemente, Kripke mencionou que seus filhos estavam assistindo a Landman — drama de Taylor Sheridan sobre a indústria do petróleo no Texas — e isso reacendeu sua percepção sobre o estilo repetitivo e focado em nichos específicos do autor. Ao transformar isso em uma IA dentro de The Boys, Kripke aponta que:
- A automação da criatividade gera conteúdos previsíveis.
- O isolamento do autor impede que novas perspectivas entrem na história.
- A Vought prefere um algoritmo que não reclama do que um humano que questiona a ética da empresa.
- O público muitas vezes consome o "mesmo show com nomes diferentes" sem perceber.
"Meu sentimento é que você está perdendo a melhor parte deste trabalho. Tudo é um show de m*rda cansativo, exceto pelo fato de você poder andar com as pessoas mais espertas que já conheceu", afirmou Kripke sobre a recusa de Sheridan em ter uma equipe.
Pra cada perfil, um vencedor
No fim das contas, a briga entre os modelos de Kripke e Sheridan reflete o que o espectador busca em uma noite de domingo. Se você é do time que gosta de ser desafiado, ama uma sátira que quebra a quarta parede e prefere roteiros que passam por dez mãos antes de chegar na tela, The Boys é o seu porto seguro. O modelo colaborativo de Kripke garante que a série permaneça atualizada com os memes e a política do mundo real, mesmo que às vezes perca a mão no choque gratuito.
Por outro lado, o império de Taylor Sheridan vence para quem busca uma visão artística singular e consistente. Existe um mérito inegável em construir um universo inteiro (o Sheridanverse) com uma assinatura tão clara que você reconhece o diálogo em cinco minutos. É o "conforto" de saber exatamente o que vai receber: caubóis durões, paisagens épicas e uma masculinidade estóica que parece ter saído de outra década.
O veredito? The Boys ganha no quesito originalidade e crítica, mas Sheridan continua ganhando no volume de audiência que não quer saber de metalinguagem, apenas de uma boa história de terra e sangue. Se a IA da Vought vai conseguir superar o carisma de Kevin Costner — ator que interpretou John Dutton em Yellowstone —, aí já é outra história que só a 6ª temporada (ou o cancelamento) dirá.


