TL;DR: the last kingdom entrega uma narrativa de política e guerra medieval mais densa que game of thrones, focando em alianças reais, disputas de sucessão e a administração de territórios conquistados.
O que aconteceu
Quando Game of Thrones estreou em 2011, trouxe à tona disputas de poder complexas que rapidamente se tornaram referência. Poucos perceberam, porém, que a série The Last Kingdom, lançada em 2015 pela netflix, já apresentava um retrato ainda mais detalhado da política e da guerra da Idade Média. Baseada na série de livros The saxon stories de Bernard Cornwell, a trama acompanha Uhtred de Bebbanburg — um saxão criado pelos vikings — enquanto ele navega entre lealdades conflitantes, tenta reconquistar seu berço natal e auxilia o rei Alfredo, o Grande, na unificação da Inglaterra.
A série se destaca por evitar o clichê de “batalhas épicas por um bem maior”. Cada vitória militar abre uma nova série de desafios administrativos: legitimação do poder, manutenção de exércitos, negociações de alianças e a constante ameaça de revoltas locais. Ao contrário de Game of Thrones, onde a política frequentemente serve como pano de fundo para grandes reviravoltas, em The Last Kingdom a política é o motor que impulsiona a narrativa.
Como chegamos aqui
O sucesso de Game of Thrones criou uma expectativa de que toda série de fantasia deveria investir pesado em intrigas palacianas. Contudo, a maioria dos projetos posteriores optou por enfatizar ação e romance, relegando a política a segundo plano. The Last Kingdom rompeu esse padrão ao:
- Apresentar personagens cujas lealdades são fluidas — Uhtred, por exemplo, luta tanto ao lado dos saxões quanto dos daneses, refletindo a realidade de um mundo onde identidade nacional era ainda incipiente.
- Mostrar a administração de territórios conquistados como parte integrante da trama, destacando a necessidade de legitimar governantes perante populações locais.
- Explorar a diplomacia religiosa, como o conflito entre cristãos saxões e pagãos daneses, que influencia decisões de guerra.
- Manter a consistência de qualidade ao longo de cinco temporadas, evitando a queda de padrão que afetou a última temporada de Game of Thrones.
Além disso, a série se beneficia de um cenário histórico real. Embora tome liberdades narrativas — como a compressão de eventos e a reinterpretação de personagens históricos —, ela ainda preserva a essência das disputas de sucessão e das alianças matrimoniais que marcaram a formação da Inglaterra. O relacionamento entre Uhtred e Alfredo ilustra bem isso: ambos precisam um do outro, mas a desconfiança persiste, criando uma tensão constante que alimenta o drama.
Enquanto Game of Thrones prioriza momentos de grande impacto — assassinatos inesperados, casamentos sangrentos —, The Last Kingdom foca na continuidade dos problemas pós-conquista. Cada vitória gera um novo conflito: quem governará a terra recém-conquistada? Como garantir a lealdade dos nobres? Como lidar com reivindicações rivais? Essa abordagem faz com que a série pareça mais um estudo de caso de governança que um mero espetáculo de fantasia.
O que vem depois
Com o encerramento da quinta temporada, a série lançou o filme The Last Kingdom: Seven Kings Must Die, que funciona como epílogo e tenta fechar as pontas soltas da saga. Apesar de o filme oferecer um desfecho satisfatório para a maioria dos fãs, ainda há um desejo latente por spin‑offs ou novas produções que explorem outras facções ou períodos da história britânica. A comunidade de fãs costuma discutir a possibilidade de uma série focada nos vikings puros ou nos reinos vizinhos, como Mercia ou Northumbria.
No Brasil, a série ainda não recebeu a atenção devida, talvez por estar associada a um universo de “séries de época” que não costuma atrair o público de fantasia. Contudo, o crescente interesse por narrativas históricas — impulsionado por podcasts e canais de youtube que analisam a Idade Média — pode mudar esse cenário. A disponibilidade na Netflix facilita o acesso, e a alta pontuação no rotten tomatoes (95% de aprovação) comprova a qualidade da produção.
Para quem já assistiu Game of Thrones e procura algo que combine drama político com realismo histórico, The Last Kingdom representa uma alternativa sólida. A série demonstra que é possível criar uma trama épica sem recorrer a dragões ou magia, bastando focar em estratégias militares, negociações diplomáticas e nas consequências de cada decisão de poder.
Para ficar no radar
Embora não tenha alcançado o mesmo nível de notoriedade que Game of Thrones, The Last Kingdom merece um lugar de destaque na lista de séries que abordam política e guerra de forma inteligente. Se você ainda não assistiu, vale a pena começar a maratonar a partir da primeira temporada, observando como a história evolui de confrontos sangrentos para questões de governança e legitimidade. A série também serve como ponto de partida para quem deseja aprofundar o conhecimento sobre a formação da Inglaterra, pois cada episódio traz referências a eventos reais que podem ser pesquisados em livros de história ou podcasts especializados.
Além disso, fique atento a possíveis novidades da Netflix relacionadas ao universo dos vikings e saxões. A demanda dos fãs por conteúdo adicional — seja em forma de spin‑offs, documentários ou mesmo jogos — pode impulsionar novos projetos nos próximos anos.
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