Jon Bernthal consolidou sua versão de Frank Castle — o Justiceiro, um dos anti-heróis mais letais da Marvel Studios — como uma das interpretações mais viscerais do gênero de super-heróis ainda na era das séries produzidas pela Netflix. Após sua reintrodução oficial ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) em Daredevil: Born Again, a expectativa era que o personagem ganhasse uma nova série solo. No entanto, a Marvel optou por um caminho diferente: o formato de "Apresentação Especial", resultando em The Punisher: One Last Kill.
O que é o especial The Punisher: One Last Kill?
Este lançamento segue o modelo de produções como Lobisomem na Noite e o especial de Natal de Guardiões da Galáxia. Trata-se de um conteúdo autônomo, com duração média de um filme de médio porte, projetado para explorar nichos ou tons que não caberiam necessariamente em uma série de 10 episódios ou em um blockbuster de cinema. Em The Punisher: One Last Kill, o foco é o estado mental de Frank Castle após os eventos traumáticos de sua carreira como vigilante em Nova York.
A proposta inicial do especial é ambiciosa: mergulhar no vazio existencial de um homem que já eliminou todos os responsáveis pela morte de sua família, mas que continua viciado no ciclo de violência. O diretor Reinaldo Marcus Green — conhecido por seu trabalho na minissérie We Own This City da HBO — tenta transformar a primeira metade da obra em um estudo de personagem claustrofóbico, mostrando um Frank Castle barbudo, sem camisa e atormentado por alucinações de seu passado militar.
Como a atuação de Jon Bernthal carrega a trama?
Jon Bernthal entrega aqui o que pode ser considerada sua performance mais física e emocional como Frank Castle. O ator, que também co-escreveu o roteiro ao lado de Green, abdica de diálogos expositivos para focar na linguagem corporal. Vemos um Justiceiro que treina até sangrar e que parece incapaz de encontrar paz, mesmo em um ambiente doméstico aparentemente calmo. É um retrato cru da depressão e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), temas que sempre orbitaram o personagem, mas que raramente foram o centro das atenções de forma tão gráfica.
A química entre o diretor e o protagonista é evidente. Eles conseguem criar uma atmosfera de pesadelo que coloca o espectador dentro da mente fragmentada de Castle. Nesse ponto, o especial se destaca de outras produções da Marvel por sua sobriedade e falta de piadas, mantendo o tom sombrio que os fãs aprenderam a amar na fase da Netflix.
Por que a fotografia de Robert Elswit é um destaque técnico?
Um dos maiores trunfos de The Punisher: One Last Kill é a presença de Robert Elswit — diretor de fotografia vencedor do Oscar por Sangue Negro (There Will Be Blood). Sua mão é sentida na forma como a luz e as sombras são utilizadas para isolar Frank Castle em seu apartamento decadente. A escolha de filmar em locações reais na cidade de Nova York, em vez de depender exclusivamente de telas verdes ou do volume digital, confere uma textura tátil e suja que ajuda na imersão.
- Uso de Planos-Sequência: O especial apresenta uma cena de ação contínua (o famoso "oner") que percorre corredores e escadarias, mostrando o nível de criminalidade que consome o bairro de Frank.
- Estética de Sonho: As sequências de alucinação utilizam lentes que criam um efeito turvo e onírico, diferenciando o que é real do que é trauma projetado.
- Ação Visceral: Quando a pancadaria começa, a câmera é ágil, mas nunca confusa, permitindo que o espectador sinta o peso de cada golpe e disparo.
Onde o roteiro de One Last Kill começa a falhar?
Infelizmente, o especial sofre de uma crise de identidade que divide a obra em duas metades distintas. Se os primeiros vinte minutos prometem uma desconstrução psicológica profunda, o restante da produção parece se render à necessidade de entregar o "espetáculo vazio" que o público médio do MCU espera. O roteiro abruptamente muda de marcha, transformando um estudo de personagem em uma desculpa para o Justiceiro dizimar um prédio inteiro cheio de criminosos genéricos.
Essa transição prejudica o impacto emocional construído anteriormente. O que era uma reflexão sobre a perda de propósito torna-se uma sequência de ação estilizada, mas sem alma, acompanhada por uma trilha sonora de rock que beira o clichê. A sensação é de que a Marvel Studios não teve coragem de levar a premissa introspectiva até o fim, temendo que a audiência ficasse entediada sem uma contagem de corpos elevada.
Qual a conexão com o futuro do MCU e Spider-Man?
Um dos grandes problemas de The Punisher: One Last Kill é sua obrigação de servir como ponte para o futuro. Sabemos que Frank Castle está programado para aparecer em Spider-Man: Brand New Day, onde enfrentará o Homem-Aranha de Tom Holland. Por conta disso, o especial precisa, obrigatoriamente, colocar o personagem de volta ao seu status quo de vigilante implacável.
Essa necessidade de continuidade impede que Castle tenha um arco de redenção ou uma conclusão satisfatória para sua dor. Ele não pode evoluir além da caveira no peito porque o universo compartilhado precisa que ele continue sendo o "Justiceiro de sempre". Assim, qualquer tentativa de ambiguidade moral é sufocada pelo barulho das balas e pela necessidade de preparar o terreno para o próximo crossover.
"The Punisher: One Last Kill acaba sendo uma vítima do próprio universo que tenta expandir: um filme que começa como arte, mas termina como um comercial de luxo para o próximo capítulo da franquia."
O veredito: vale a pena assistir?
Para os fãs ávidos de Jon Bernthal, o especial é obrigatório apenas pela performance do ator, que continua sendo a melhor versão de Frank Castle já produzida. Tecnicamente, a obra é superior a muitas séries recentes da Marvel, especialmente no que diz respeito à cinematografia e ao uso de efeitos práticos. É refrescante ver o MCU abraçar a classificação indicativa para adultos (Rated R) de forma tão direta, sem economizar no sangue ou na brutalidade.
No entanto, como peça de narrativa, The Punisher: One Last Kill deixa um gosto amargo. Ele prova que a Marvel ainda tem dificuldade em equilibrar o desenvolvimento de personagem com as exigências de sua fórmula comercial. É um especial que tem muito estilo, mas que falha em entregar a substância que sua introdução prometia. Se você busca apenas ação de alta qualidade, ficará satisfeito; se busca uma conclusão emocional para a jornada de Frank Castle, sairá decepcionado.
O especial estreia oficialmente no Disney+ em 12 de maio de 2026, e serve como um lembrete de que, no mundo dos super-heróis, raramente existe um "último abate" definitivo.


