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Yoshiyuki Tomino: por que o pai de Gundam acha que anime e cinema perderam o 'senso de maravilhamento'

· · 5 min de leitura
Idoso faz alongamento leve em estúdio iluminado cercado de maquetes de robôs gigantes
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Yoshiyuki Tomino, criador de Mobile Suit gundam — a franquia que definiu o gênero mecha realista nos anos 70 — recebeu em abril a Ordem do Sol Nascente (Raios de Ouro com Fita no Pescoço), uma das maiores honrarias civis do Japão. Na entrevista concedida à Kyodo News para comemorar o prêmio, ele não fez discurso de agradecimento: fez um diagnóstico duro sobre o estado da direção em anime e cinema hoje.

O que Tomino chama de 'senso de maravilhamento' — e por que ele sumiu

Para Tomino, o senso de maravilhamento não é efeito especial nem resolução 8K. É a construção deliberada de um plano que convida o espectador a procurar o personagem dentro de um cenário vasto. Ele descreve a receita clássica: cinco ou seis planos convencionais, seguidos de um plano que guia o olhar do público, e então um plano geral amplo onde o personagem se torna pequeno diante do mundo. "O público se imerge na história ao buscar o personagem no fundo enorme. Esse processo de busca é de onde vem o 'senso de maravilhamento'", explica.

Hoje, segundo ele, a tecnologia permite criar qualquer coisa — e justamente por isso sobra pouco espaço para a surpresa genuína. O diretor aponta que muitas produções exibem CG apenas porque "deram o trabalho de fazer", não porque a narrativa pede. "Esquecemos os princípios da direção e da narrativa que dão aos filmes seu senso de maravilhamento."

Close-up em 4K: quando ver os poros vira defeito, não virtude

Outro alvo de Tomino é a obsessão por alta resolução. "Imagens ficaram com resolução alta demais. Quando um close-up mostra até os poros da pele, pergunto: é realmente okay que eles fiquem visíveis? Existem personagens cujos poros não queremos ver." A crítica não é ludita; é sobre escolha de direção. câmeras digitais modernas tornam fácil capturar detalhe excessivo, e diretores inexperientes deixam a máquina ditar a estética em vez de tomar a decisão artística de suavizar, enquadrar ou cortar.

O resultado, na visão dele, são filmes que "parecem feitos do jeito fácil" — tecnicamente impecáveis, mas vazios de intenção autoral.

IA generativa: ferramenta conveniente, mas sem 'olho de diretor'

Questionado sobre IA generativa, Tomino reconhece a conveniência, mas alerta: "Muitos não têm a capacidade de julgar se ela realmente serve ao drama." Ele usa o exemplo do close-up facilitado por tecnologia: "Você consegue takes convenientes e ótimos, então o ator só precisa ser 'um pouco bom' para sustentar a cena." O perigo não é a ferramenta em si, mas a ausência do juízo diretorial que decide quando, por que e como usar cada recurso em função da narrativa.

"Existem filmes que até esquecem de seguir a narrativa. O que quero dizer é: precisamos nos esforçar para retratar o processo da própria encenação dramática."

Tomino vs. indústria atual: comparativo de filosofias

Princípio Visão de Tomino (direção clássica) Tendência atual (crítica dele)
Uso de CG Ferramenta a serviço do plano narrativo Exibição de assets por terem sido caros/difíceis
Resolução/Close-up Decisão artística: mostrar ou ocultar detalhe Exibição automática de poros/texturas por capacidade técnica
IA Generativa Recurso julgado pelo 'olho do diretor' para o drama Adoção por conveniência, sem critério narrativo
Maravilhamento Construído por enquadramento, ritmo e espaço negativo Substituído por densidade visual e espectáculo técnico

O projeto secreto: aposta de quem ainda acredita na direção

Tomino confirmou que trabalha em um novo projeto próprio, mantido em sigilo. "Se me deixarem produzir, tenho confiança de que será uma obra-prima." A frase soa arrogante isolada, mas no contexto da entrevista revela a convicção de quem passou seis décadas exercendo o ofício de diretor — não de supervisor de pipeline, não de curador de assets, mas de quem decide cada corte, cada pausa, cada silêncio em função da história.

Vale lembrar: Tomino já criticou a própria base de fãs de Gundam por focar no militarismo e ignorar a mensagem anti-guerra. Sua coerência está em cobrar intenção — seja do público, seja da indústria.

Vereditos: o melhor para cada perfil

  • Para diretores e roteiristas: Releiam a entrevista como checklist. Cada plano do seu storyboard serve à narrativa ou apenas exibe capacidade técnica?
  • Para produtores e estúdios: A lição não é "não use CG/IA". É: contrate diretores com autoridade para dizer "não" a esses recursos quando não servem à história.
  • Para fãs e críticos: Pare de elogiar "visuais lindos" como sinônimo de boa direção. Pergunte: o que aquele plano faz com a história?
  • Para estudantes de animação: Estudem a gramática do plano geral, do fora-de-quadro, do silêncio. A tecnologia muda; a linguagem cinematográfica, não.

A aposta da redação

O novo projeto de Tomino — seja lá o que for — será o teste definitivo da tese dele. Se ele conseguir provar na prática que "maravilhamento" ainda se constrói com enquadramento, ritmo e coragem de deixar o espectador buscar o personagem no escuro do fundo, a indústria terá um contraponto vivo ao discurso de que "o público só quer mais pixels".

Enquanto isso, a entrevista já cumpre função pedagógica: obriga quem faz anime e cinema a se perguntar, antes de renderizar o próximo asset ou gerar o próximo prompt: isso serve ao drama ou só ao meu portfólio técnico?

Perguntas frequentes

O que é o 'senso de maravilhamento' segundo Yoshiyuki Tomino?
É a imersão criada quando o espectador precisa buscar o personagem dentro de um cenário vasto, após uma sequência de planos que guiam o olhar. O ato de procurar gera o encantamento, não o detalhe técnico em si.
Tomino é contra o uso de CG e IA em anime?
Não. Ele critica o uso sem critério narrativo — quando a tecnologia é exibida por ter sido cara ou conveniente, e não porque a história pede. Para ele, falta o 'olho do diretor' para julgar se o recurso serve ao drama.
Qual prêmio Yoshiyuki Tomino recebeu em abril?
A Ordem do Sol Nascente (Gold Rays with Neck Ribbon), uma das maiores honrarias civis concedidas pelo governo japonês.
Tomino está trabalhando em um novo anime?
Sim. Ele confirmou um projeto próprio em andamento, mantido em segredo, e disse ter confiança de que será uma obra-prima se lhe permitirem produzi-lo.
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