A música dos animes perdeu um de seus pilares mais sofisticados no último dia 4 de maio.
Yuji Ohno, o pianista de jazz e compositor que deu vida à sonoridade inconfundível de Lupin III (franquia clássica sobre o ladrão cavalheiro), faleceu aos 84 anos de causas naturais. O anúncio foi feito oficialmente por seu site e pela produtora Office Augusta, confirmando que o mestre partiu tranquilamente enquanto dormia. Para o fã brasileiro, Ohno pode não ter o nome tão estampado quanto um Joe Hisaishi (Studio Ghibli), mas sua influência no City Pop e no jazz japonês é o que moldou muito do que consumimos hoje como estética retrô e lo-fi.
Nascido em uma era onde o piano era seu brinquedo de infância, Ohno foi um autodidata do jazz durante o ensino médio. Sua transição para as trilhas sonoras nos anos 70 não foi apenas uma mudança de carreira, mas uma revolução estética. Antes dele, as trilhas de anime tendiam para o orquestral clássico ou marchas militares. Ohno trouxe o groove, o improviso e a elegância das noites de Tóquio para a televisão, tornando-se indissociável da figura de Arsène Lupin III.
Lupin III e a revolução do Jazz-Funk
Em 1977, quando assumiu a trilha de Lupin III: Part II (a famosa série da jaqueta vermelha), Ohno criou o que viria a ser um dos temas mais reconhecíveis da história da animação mundial. O tema de Lupin III não é apenas uma música de abertura; é uma declaração de estilo. Com metais agressivos, uma linha de baixo pulsante e um piano que dança entre as notas, ele definiu que Lupin não era apenas um desenho de aventura, mas uma obra de cool jazz.
Ohno não se limitou a compor e entregar as partituras. Ele viveu a obra. Através de seus grupos, como o Yuji Ohno & Lupintic Five (posteriormente Lupintic Six), ele excursionou por décadas, mantendo a chama do jazz viva e provando que a música de anime poderia (e deveria) ser respeitada em conservatórios e casas de show de elite. Para o público brasileiro, que teve contato com Lupin em momentos esparsos na TV aberta e depois no streaming, a música de Ohno sempre foi o elemento que elevava a experiência, mesmo quando a animação de alguns filmes especiais não acompanhava o mesmo nível de qualidade.
Captain Future e a síntese espacial
Embora Lupin seja sua obra máxima, Ohno demonstrou uma versatilidade impressionante em Captain Future (anime de ficção científica baseado na obra de Edmond Hamilton). Aqui, o jazz deu lugar a uma experimentação mais espacial, flertando com o que viria a ser o sintetizador moderno. Ele conseguiu capturar a melancolia da exploração espacial sem perder o ritmo que era sua marca registrada.
Um fato curioso para os colecionadores de curiosidades é a música "Oira wa Sabishii Spaceman", composta por ele para esta série. Décadas depois, a canção ganhou um cover de Minori Chihara (dubladora e cantora japonesa) para o anime Cat Planet Cuties, provando que as composições de Ohno possuem uma longevidade que atravessa gerações e gêneros de animação.
Space Adventure Cobra e o ritmo da ação
Outro marco na carreira de Ohno foi sua colaboração em Space Adventure Cobra (série baseada no mangá de Buichi Terasawa). O tom de Cobra exigia algo mais visceral, um misto de James Bond com psicodelia espacial. Ohno entregou uma trilha que complementava perfeitamente o design de personagens hiper-masculino e os cenários surreais da obra. É aqui que percebemos como ele entendia o timing da comédia e da ação, usando o piano para pontuar os momentos de malandragem do protagonista.
| Obra | Estilo Predominante | Impacto Cultural |
|---|---|---|
| Lupin III | Jazz-Funk / Brass | Definiu o padrão de trilhas "cool" em animes. |
| Captain Future | Space Opera / Synth | Pioneirismo na música de ficção científica melódica. |
| Space Adventure Cobra | Action Groove | Fusão perfeita entre espionagem e aventura espacial. |
| The Inugami Family | Mistério Clássico | Trilha icônica do cinema live-action japonês (1977). |
Vereditos: o melhor de Yuji Ohno para cada perfil de fã
A vasta obra de Yuji Ohno permite que diferentes tipos de entusiastas encontrem algo que ressoe com seus gostos pessoais. Se você está perdido por onde começar a homenagear o mestre, aqui está o caminho ideal:
- Para o fã de Jazz puro: Procure os álbuns da Lupintic Six. São gravações modernas de temas clássicos, onde o virtuosismo de Ohno ao piano está em primeiro plano, com arranjos que fariam inveja a qualquer clube de jazz de Nova York.
- Para o fã de trilhas épicas: O filme O Castelo de Cagliostro (dirigido por Hayao Miyazaki) traz uma das variações mais belas do tema de Lupin, misturando aventura com uma sensibilidade quase europeia que Ohno dominava como poucos.
- Para o fã de nostalgia Tech/Retro: A trilha de Captain Future é essencial. Ela mostra um lado menos "acústico" e mais experimental, ideal para quem gosta da estética retrofuturista dos anos 70 e 80.
- Para o fã de Cinema: Não ignore seu trabalho em The Inugami Family, filme do diretor Kon Ichikawa. É uma aula de como criar tensão e atmosfera sem depender de clichês de terror, usando a elegância do piano para desconcertar o espectador.
A morte de Yuji Ohno marca o fim de uma era em que a música de anime era composta com uma liberdade criativa quase rebelde. Ele não seguia fórmulas de mercado; ele criava o mercado. Enquanto muitos compositores atuais se prendem a batidas eletrônicas genéricas, Ohno nos lembra que um bom arranjo de metais e um piano bem executado são eternos.
Para ficar no radar
A partida de Yuji Ohno certamente gerará uma onda de tributos no Japão e em festivais de jazz ao redor do mundo. É esperado que a franquia Lupin III, que continua ativa com novas séries e filmes, anuncie em breve como será conduzida a identidade musical daqui para frente. Substituir Ohno é uma tarefa impossível; o máximo que um sucessor poderá fazer é tentar emular o brilho que ele deixou.
Para os fãs brasileiros, fica a recomendação de revisitar as obras disponíveis em plataformas de streaming e, principalmente, buscar as gravações ao vivo. Ohno era um artista de palco, e sua energia aos 80 anos ainda era superior à de muitos músicos jovens. Ele não apenas compôs trilhas; ele ensinou o mundo a ouvir jazz através dos olhos de um ladrão gentil. O silêncio que ele deixa agora é preenchido pelo eco eterno de seu trompete de ouro e seu piano inesquecível.


