A trajetória de Ro Laren, a oficial bajorana interpretada por Michelle Forbes em Star Trek: The Next Generation (série de ficção científica clássica dos anos 90), é um dos maiores "e se" da história da franquia. Recentemente, completaram-se 32 anos desde sua última aparição antes do longo hiato de quase três décadas, um período em que a personagem, que deveria ser o pilar de uma nova série, simplesmente desapareceu do mapa estelar.
A decisão de Forbes de não seguir o caminho óbvio de uma franquia consolidada não foi apenas uma escolha de carreira; foi um evento sísmico que obrigou os roteiristas a reinventarem o DNA de Star Trek: Deep Space Nine (série focada em uma estação espacial) e, posteriormente, de Star Trek: Voyager (série sobre uma nave perdida no quadrante Delta).
O que aconteceu
Michelle Forbes encerrou sua participação em The Next Generation no episódio "Preemptive Strike", exibido em 16 de maio de 1994. Na trama, a personagem, após passar por treinamento tático avançado sob a tutela do Capitão Jean-Luc Picard, acaba desertando da Frota Estelar para se juntar aos Maquis, um grupo de resistência rebelde. Essa saída foi o ponto final de uma trajetória que, nos planos originais dos produtores, deveria ter sido apenas o começo.
A atriz manteve-se afastada do universo de Gene Roddenberry por 29 anos, focando em projetos cinematográficos e outras séries. Seu retorno triunfal só ocorreu em 2023, na terceira temporada de Star Trek: Picard, onde Ro Laren teve um desfecho digno, sacrificando-se em uma missão suicida para expor uma conspiração dos Trocadores (Changeling) dentro da Frota Estelar. Foi um fechamento melancólico e potente para uma personagem que, por muito pouco, não foi a protagonista de toda uma era da franquia.
Como chegamos aqui
O impacto da recusa de Forbes é subestimado pelos novos fãs, mas foi catastrófico para a produção na época. Os bastidores da criação de Deep Space Nine revelam que a série foi desenhada em torno de Ro Laren. A ideia era ter uma personagem com um passado turbulento, marcada pela ocupação cardassiana, liderando a estação. Quando Forbes recusou o convite, a produção entrou em pânico criativo.
A solução foi criar Major Kira Nerys, interpretada por Nana Visitor. Embora Kira tenha se tornado uma das personagens mais amadas e complexas de todo o cânone de Star Trek, ela não era o plano original. A ausência de Ro Laren forçou a equipe a recalibrar o tom da série, tornando-a algo diferente do que havia sido planejado inicialmente.
Os motivos para as recusas sucessivas foram claros na época:
- Desejo de cinema: Forbes buscava papéis que a distanciassem da imagem de "atriz de TV de ficção científica".
- Liberdade criativa: A atriz queria evitar o estigma de ficar presa a um único papel por sete temporadas.
- Foco em diversidade de papéis: Ela buscou projetos como o filme Kalifornia, que lhe rendeu reconhecimento crítico fora do nicho nerd.
Além de Deep Space Nine, Forbes também teria sido sondada para integrar o elenco de Voyager, possivelmente como uma desertora Maquis, mas novamente declinou. A percepção de que a personagem teria morrido após sua deserção em 1994 tornou-se a verdade oficial por quase três décadas, até que a série Picard decidiu resgatar esse fio solto.
O que vem depois
O retorno de Ro Laren em Picard não foi apenas um fan service barato; foi uma correção histórica necessária. Ao colocar Ro Laren frente a frente com Picard, a série fechou um ciclo de ressentimento e lealdade que começou nos anos 90. A entrega do brinco bajorano como símbolo de inteligência secreta foi o encerramento perfeito para uma personagem que sempre viveu na zona cinzenta da moralidade.
O que resta agora é a lição que a franquia aprendeu: personagens secundários fortes, quando bem escritos, podem carregar o peso de uma série inteira. Se Forbes tivesse aceitado, talvez não tivéssemos a Major Kira que conhecemos, e a história de Deep Space Nine teria sido drasticamente menos política e mais focada na redenção pessoal de uma oficial da Frota. A aposta da redação é que, embora a recusa tenha causado dor de cabeça aos produtores na época, ela acabou gerando uma diversidade de personagens que enriqueceu o universo de Star Trek como um todo.
O lado que ninguém está vendo
A obsessão dos fãs por ver atores retornando a papéis antigos muitas vezes ignora o crescimento profissional do próprio artista. Michelle Forbes provou, ao longo de décadas, que não precisava de um uniforme da Frota Estelar para ser uma atriz de alto nível. Sua recusa, vista na época como uma afronta à "família Star Trek", foi, na verdade, uma demonstração de autonomia.
O fato de ela ter retornado em Picard mostra que o tempo cura as feridas da produção e que, às vezes, o melhor momento para um personagem retornar é quando o ator sente que tem algo novo a oferecer. Ro Laren não voltou para ser uma heroína imaculada; ela voltou como alguém que falhou, que sofreu e que, por fim, encontrou o caminho de volta para casa — mesmo que o caminho fosse através de uma explosão espetacular.


